Uma história (sem final) feliz Comemorar os 25 anos de implantação da Pinacoteca de São Bernardo do Campo demanda uma dupla ação: festejar e rememorar. Festejar porque, em seu início, pairavam dúvidas sobre a continuidade da iniciativa. Rememorar porque, diferente de outros acervos que focam períodos da história da arte ou diferentes modalidades plásticas, o acervo da Pinacoteca de SBC é um conjunto que só se torna compreensível se resgatarmos os vínculos entre a Administração Pública e os artistas da região e de outros locais e que por aqui transitaram. No final da década de 60, a Prefeitura criou o Prêmio PMSBCno Salão de Arte que já era promovido pela ASBA (Associação Sãobernardense de Belas Artes) há quase duas décadas, estreitando vínculos com esta entidade e com os artistas por ela representados. Tal aproximação também teve ares de interferência, pois, logo, a premiação passou a contemplar duas alas, denominadas “acadêmica” e “contemporânea”, e abriu espaço para obras que não se enquadravam nos critérios e preceitos das “Belas Artes”. Pode-se considerar, ainda, que esta iniciativa foi o embrião da Pinacoteca, já que o prêmio era aquisitivo e começou a formar um pequeno acervo que se espalhava pelos gabinetes da Prefeitura. Em março de 1975, a aprovação de um projeto de lei da administração Geraldo Faria Rodrigues institui a Pinacoteca, dando estatuto legal de acervo às obras adquiridas através dos salões da ASBA. Por essa época, o trabalho da Administração, no que tange as artes plásticas, intensificou-se. De março de 1977 a janeiro de 1983, foram realizadas 414 exposições de arte, envolvendo 393 artistas e 41 diferentes locais. Coerente com algumas necessidades e idéias do momento, as exposições não se limitavam ao espaço formal do “cubo branco” e dos locais específicos e eram levadas a lugares tão inusitados como feiras-livres, hotéis, bancos, bibliotecas e fábricas. Data desse período, também, a criação do “Rotativarte”, um sistema de exposições simultâneas que eram periodicamente trocadas (em rodízio), levando um conjunto significativo de obras a diversos pontos da cidade. Em 26 de novembro de 1980, a Pinacoteca finalmente recebe um espaço para sua implantação. Com a destinação de uma sala no Centro Cultural do Bairro Assunção, a Pinacoteca passa a manter uma exposição permanente de seu acervo, que contava com 79 obras.Junto com a criação das Casas de Arte, passou-se a oferecer um número significativo de cursos e oficinas. O conjunto “exposições + oficinas” foi responsável, durante anos, por uma intensa movimentação na área de artes plásticas. Em alguns momentos, o incentivo à produção se concretizou através da proposição de intervenções, na maioria das vezes artísticas, mas, não raro, também de cunho social ou político. Por exemplo, no Natal de 1983, placas de sinalização de trânsito foram pintadas e colocadas nas ruas. Em outros momentos, a intervenção se deu através de outdoors ou de manifestações contra a Guerra do Golfo (a primeira). Estes são apenas alguns exemplos que ilustram o tipo de relacionamento que mantinham artistas e Administração Pública. Os vínculos estabelecidos durante décadas de trabalho permitem compreender o motivo de que metade do acervo atual seja constituído de doações dos próprios artistas e de que as doações, no geral, correspondam a dois terços do acervo. Seguramente, muitas das obras em acervo têm uma história para contar. Ainda na década de 80, a Prefeitura passou a organizar seus próprios salões de arte. O “Nossa Gente Coletivas de Arte de São Bernardo”, que depois se transformou no Salão de Arte do Grande ABC, e o Salão de Arte Contemporânea de São Bernardo do Campo (de âmbito estadual), foram responsáveis por grande parte das obras que integraram e integram o acervo através de compra. O trabalho, aqui descrito de forma sucinta, acompanhou a Pinacoteca em sua mudança de sede e integração ao Núcleo Henfil de Cultura no início da década de 90 e ao Espaço Henfil de Cultura em meados dos 90, local onde permanece até os dias de hoje. É essa história que celebramos na ocasião da comemoração dos 25 anos de implantação da Pinacoteca. Uma história feliz e que, esperamos, não venha a ter fim. Secretaria Especial de Coordenação de Ações Voltadas à Comunidade Secretaria de Educação e Cultura 25 ANOS ATRÁS DEPOIMENTOS DA ÉPOCA DA IMPLANTAÇÃO DA PINACOTECA Tito Costa foi o único prefeito que realizou e defendeu as artes plásticas e artistas, como nenhum outro prefeito fez nestes últimos anos. O Prefeito é de uma visão extraordinária sobre as artes plásticas, não é demagogo, gosta mesmo de arte e é um dos maiores colecionadores. Agenor, artista plástico da Região do Grande ABC. A arte em sua ampla dimensão levada aos diversos espaços culturais, desde os já tradicionais ate´os não comumente utilizáveis, visa acima de tudo aproximar a arte do grande público. Merece apoio e aplauso essa política em prol das artes desenvolvida em São Bernardo do Campo. Boris Kossoy, Diretor do MIS-Museu da Imagem e do Som (São Paulo). “Sensibilidade”, “espírito empreendedor” e “objetividade” são as três qualidades básicas da gestão Tito Costa frente à Prefeitura de São Bernardo do Campo. Seu trabalho profícuo no setor das Artes deveria tristemente não o é ser imitado pelos outros prefeitos e seus secretários de cultura. São Bernardo é o perfeito exemplo de pujança aliada à sensibilidade. Caciporé Torres, artista plástico. (São Paulo) O trabalho de Tito Costa e seus colaboradores nestes seis anos no setor de Artes Plásticas foi insuperável. Castellane, artista plástico. (São Paulo) Vindo de Ilhéus na Bahia, aqui em São Bernardo do Campo fui valorizado, promovido na minha arte e divulgado como em nenhuma outra cidade que conheci. O que aconteceu comigo, gostaria que fosse estendido aos outros batalhadores artistas como eu, que produzem e vivem da arte. Climério Cordeiro, artista plástico da Região do Grande ABC. O sistema de exposições circulantes representa um esforço no sentido de democratizar a cultura. Enock Sacramento, Membro da APCA Associação Paulista de Críticos da Arte. É de vital importância o trabalho cultural realizado no ABC pelo município de São Bernardo. Não apenas pelo seu aspecto descentralizador, mas, sobretudo por haver encontrado novas formas de amostragem de arte, mas abranjentes e dinâmicas como por exemplo a Rotativarte. Também quero ressaltar o trabalho realizado frente à Pinacoteca de São Bernardo do Campo. Fábio Magalhães, artista e crítico de arte.(São Paulo) Na procura de novo público, levando a obra de arte à fábrica, igreja, restaurante, biblioteca, feira-livre, etc., está o trabalho mais importante do Departamento de Cultura de São Bernardo do Campo. Guido Heuer, artista plástico.(Blumenau/ SC) A arte em seus vários segmentos obteve em São Bernardo do Campo o total apoio e divulgação nos variados espaços culturais criados para esse fim. Um rico painel de produtores de arte foi levado aos bancos, sindicatos, fábricas, praças públicas, clubes, na demonstração da força de uma política cultural, altamente qualificada. A ação cultural marca efetiva contribuição ao alcance do povo, cuja oportunidade gerou saldo positivo. Que o exemplo cultural são-bernardense seja multiplicado em outras comunidades, como fator prioritário de desenvolvimento. Esse é o objetivo para valorizar a arte em suas variantes. Henrique L. Alves, Presidente da APCA Associação Paulista de Críticos de Arte. É muito difícil um cidade brasileira participar da vida cultural. É mais difícil ainda quando esta cidade não é uma grande capital. E é mais difícil ainda este esforço de participação se prolongar. São Bernardo participa e estimula a vida cultural há vários anos. É um caso raro e agradável. Jacob Klintowitz, crítico de arte.(São Paulo) A ARTE COMO META Ativando as artes visuais, São Bernardo do Campo se posiciona como um centro ativo na difusão cultural por intermédio de sua Pinacoteca e pelos inúmeros eventos, que vem ocorrendo nestes últimos seis anos. Valores consagrados e novos se confraternizando num relacionamento amplo com o público e com o mundo, pelo impacto de obras diversas em técnicas multifacetadas, como em suportes variados, abrangendo as tendências contemporâneas. A importância de um espaço cultural tanto se mede pelas iniciativas realizadas, como pelo potencial inerente à sua estrutura empreendedora. São Bernardo do Campo, reúne condições de desenvolver cada vez mais, as forças produtoras da cultura em seu senso pleno. J. Henrique Fabre Rolim, Membro da APCA Associação Paulista de Críticos de Arte/ABCA Associação Brasileira de Críticos de Arte/AICA Associação Internacional de Críticos de Arte. O movimento são-bernardense é um dos mais importantes no cenário das artes plásticas brasileiras, porque, sendo São Bernardo do Campo uma cidade de operários que representam o povo brasileiro, a cidade tem justamente se esforçado em apresentar a arte feita por esse povo. E por sinal, é exatamente essa modalidade que mais agrada no estrangeiro e não às nossas pretensiosas imitações. Jos Luyten, Membro da ABCA Associação Brasileira de Críticos de Arte, APCA Associação Paulista Críticos de Arte, Professor da ECA/USP. A preocupação de criar um centro de cultura em São Bernardo do Campo, abrindo, ampliando e renovando o seu espaço para as manifestações culturais, merece de todos nós que lidamos no ofício da arte, o maior respeito e colaboração, pois numa cidade de população operária, apoiar os movimentos artístico-culturais é o que de mais belo e importante, se poderia realizar. Não podemos esquecer também que, além de estimular as diferentes linguagens artísticas, foi dedicada a nossa Cultura Popular, uma atenção especial, o que reafirma a seriedade desse trabalho que procurando preservar esta forma de expressão artística, contribui fundamentalmente para o enriquecimento da nossa memória cultural. Lurdes Cedran, artista plástica/Diretora Técnica do Paço das Artes (São Paulo). A ação cultural de São Bernardo empenha-se na descentralização e na abertura de novos espaços para a arte. Espera-se que esses espaços sejam mantidos e enriquecidos não tanto pela quantidade, mas também pela qualidade das programações culturais. Manuel Reis, crítico de fotografia do jornal Diário do Grande ABC, membro da APCA. UMA GRANDE EXPERIÊNCIA CULTURAL A Pinacoteca de São Bernardo vem desenvolvendo uma atividade muito fecunda e exemplar, procurando associar eventos artísticos com variadas atividades populares, desde o trabalho nas fábricas até as festividades e reuniões. Estas manifestações artísticas adquirem um sentido maior pelo carinho com que a Pinacoteca de São Bernardo tem manifestado pela criação dos artistas populares, associando a vida do povo tanto com a criação dos artistas de maior erudição como a dos artistas populares. Assim o povo de São Bernardo pode se reencontrar na obra de seus artistas populares. Mário Schenberg, Professor da USP/Membro da AICA Associação Internacional de Críticos de Arte. A implantação de uma política cultural séria foi o principal mérito de São Bernardo do Campo nestes últimos tempos. O restante virá a seguir, se não houver interesses em contrário. Ou desinteresse. - Milton Andrade, Diretor da Fundação das Artes de São Caetano do Sul. Em cada momento criador, fazemos uma viagem para dentro de nós, buscamos os mistérios que se alojam no profundo de nosso ser, é a sempre temerosa viagem ao desconhecido. Estes mistérios afloram para o campo de atuação do artista, ação signos coletivos, agradáveis ou não que ao serem vistos pelo observador são imediatamente reconhecidos e codificados, daí a importância da arte, pois fala a linguagem de sua época. É preciso que se leve esta arte não só a um pequeno público já preparado a esta “leitura”, mas também ao grande público pois de alguma forma estes signos lhe atingirão. Neide Margonari, artista plástica da região do Grande ABC. O incentivo as artes plásticas foi um dos maiores trabalhos realizados pela valiosa equipe do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação, Cultura e Esportes, trabalho esse que deve ter prosseguimento pela nova administração, pois eleva sobremaneira o nível artístico-cultural de São Bernardo do Campo. Odette Tavares Bellinghausen, artista plástica e crítica de arte da Região do Grande ABC. Embora distante fisicamente dela pois vivo e atuo em São Paulo, vejo a Pinacoteca de São Bernardo do Campo com respeito e admiração. Sei muito bem como o poder público vê e trata a Cultura no Brasil e sei , igualmente, que a cidade de São Bernardo, pobre e com problemas que parecem insolúveis não possa (mas deveria) dedicar muito tempo ao lazer cultural e à própria Arte. Lutando com essas dificuldades naturais ao Brasil a Pinacoteca de São Bernardo do Campo merece, repito, minha admiração e meu respeito. E, para evidenciar isso, lembro (com pesar e grande tristeza) que Brasília, a capital brasileira, ainda não tem um museu de arte! Admiro o jeito simpático e até pitoresco dessa Pinacoteca de São Bernardo do Campo de ir atrás do público, já que ele, com infinitos problemas de sobrevivência física e espiritual, não a pode procurar. Admiro essa locomoção da Pinacoteca de São Bernardo do Campo em clubes, fábrica, bancos, sindicatos, outras cidades, faculdades, hotéis, lojas e restaurantes. E, se me permitem, fica uma sugestão: que se faça, logo, uma sala de Arte Brasileira onde as obras dos nossos índios, de José Antonio da Silva e de Agostinho Baptista de Freitas ocupem o lugar maior que merecem. Olney Krüse, Membro da ABCA Associação Brasileira de Críticos de Arte / Membro da APCA Associação Paulista de Críticos de Arte. A gente sabe que São Bernardo do Campo “é uma luz que ilumina todos os artistas” e existe um anseio muito grande entre nós artistas que São Bernardo continue com essa tarefa. Orlando Mattos, artista plástico da região do Grande ABC. Se são os fatos que valem, este da implantação de um centro de cultura em São Bernardo do Campo deve ser louvado e, se possível imitado. O que é possível quando quem detém o poder entende e exige cultura. P. M. Bardi, Diretor do Masp-Museu de Arte de São Paulo. O trabalho realizado nestes últimos 6 anos em São Bernardo do Campo é valioso e profundo. Levar a arte ao alcance do “grande público” acho até louvável, entretanto, isto não basta, é preciso que com a exposição, também compareça o próprio artista nos diversos espaços percorridos pela exposição. Daí o “grande público” poderia também participar e ser informado e, ao artista produzir suas obras e mostrando suas técnicas apresentar ou difundir suas mensagens. Aos pintores, estes teriam ainda a oportunidade de retratar os aspectos da paisagem e “da memória de nossa cidade”. Finalmente, minha sugestão é, baseado no que é feito em São Bernardo, as Prefeituras do Grande ABC, se unissem e concretizassem um grande sonho dos artistas em geral, a realização de um grande Salão de Arte do Grande ABC. Romeu Marçon, artista plástico da Região do Grande ABC. Tenho acompanhado nesses últimos seis anos o esforço de São Bernardo do Campo para implantar um núcleo artístico-cultural no município. Além da Pinacoteca Municipal foram inúmeros eventos, muitos pintores tiveram seus nomes credenciados até no exterior através de intercâmbios culturais. Seria importante a interligação desses esforços com o poder público interestaduais e organismos internacionais, pois infelizmente a cultura artística da nossa sociedade não acompanha a evolução de seu potencial.Sinval, artista plástico da Região do Grande ABC. São Bernardo do Campo, exemplo de cultura do Brasil. Cada dia eu chego em São Bernardo do Campo na Pinacoteca, na Prefeitura ou mesmo na Câmara Municipal, meu coração explode de felicidade, ver tantos movimentos de Artes. Por isso me alegro cada vez mais, com um povo que vive e cultiva as artes en todos os campos. São Bernardo do Campo de Tito Costa , berço de um povo que cultiva o que é belo. As artes cada dia encontram um espaço para a criatividade de um autêntico artista. Viva São Bernardo de meu grande amigo Tito Costa. Waldomiro de Deus, artista plástico. (Osasco) A pintura popular brasileira tem sido prestigiada bastante em São Bernardo do Campo. Bom seria que o Itamarati a incluísse em exposições no exterior, porque já é tempo de divulgarmos as coisas nossas, é tempo do Brasil. Zé Cordeiro, artista plástico. (São Paulo) “Finalmente, a primeira pinacoteca na região” .Enock Sacramento, Membro da APCA Associação Paulista de Críticos de Arte (Título de reportagem publicada o Diário do Grande ABC, em 4 de dezembro de 1980). “Uma pinacoteca entre chaminés” Ivo Zanini Membro da APCA Associção Paulista de Críticos de Arte (Título de reportagem publicada na Folha de São Paulo, em 13 de dezembro de 1980). “São Bernardo abre hoje sua primeira sala de arte” (título de reportagem publicada no Estado de São Paulo, 26 de novembro de 1980). OS MELHORES DA APCA-1982 Atribuído ao escultor Caciporé Torres o “Prêmio Arte-Comunicação” pela participação 1ª Expointer (circuito das fabricas: Ford, Mercedes-Bens e VW) realizada nos meses de maio a julho. |