“1907. Marzo 11. D. Virginia Giusti dato alla luce 1 bimba a 10 de matina in salute. 20$000”. É de uma maneira semelhante a esta que o primeiro registro escrito da existência de centenas de moradores de São Bernardo foi produzido nas duas primeiras décadas do século XX.

Trata-se da transcrição de uma entrada do livro de anotações da parteira Therezina Capitanio Fantinati, utilizado entre 1902 e 1920, um dos itens originais mais antigos do acervo do Centro de Memória de São Bernardo do Campo, doado pela neta de Fantinati, Rita Zincaglia. Vinda da comuna italiana de Siriate, na província de Bérgamo, Fantinati chegou ao Brasil em 1894 e, alguns anos depois, se estabeleceu com o marido, Vitório, na esquina da Rua Marechal Deodoro com a Rua Tenente Sales, mesmo local onde manteve por muitos anos uma importante indústria de fiação de seda.

Em geral suas anotações eram escritas em italiano e informavam data, nome da parturiente, quantidade e sexo dos bebês, hora do nascimento, o estado de saúde e o valor do parto, o qual, geralmente, variava entre 20 e 80 mil réis, possivelmente em função da distância ou do tempo necessário para realização do atendimento (1). Algumas vezes os registros fugiam ao padrão apontado e faziam menções a abortos – com indicação do mês de gestação em que ocorreu o infortúnio –, a natimortos, a procedimentos cirúrgicos e a óbitos de parturientes. Nomes de mulheres pertencentes a famílias muito conhecidas na cidade, especialmente na região central, aparecem por todo o livro, desde imigrantes, como Miele, Bellinghausen, Arsuffi, Campi, Corazza, Rathsam, Elias, Pasin, Colombo, Coppini, Guazelli, Cerchiari, Prugner, Périgo, Pinotti, Bechelli, entre outros, até de antigas famílias brasileiras como Madeira, Pedroso, Oliveira Lima e Almeida.

Aparecem também muitos atendimentos a famílias instaladas nas antigas linhas coloniais Jurubatuba e Galvão Bueno – área atualmente ocupada pelos bairros Planalto, Assunção, Dos Casa, Demarchi e Batistini –, como Cestari, Pedó, Boff, Breda, Casa, Bonício, Pessotti, Frada, Batistini, Stangorlini e Galvão Bueno. Algumas vezes Fantinati assistia até mesmo em regiões bastante distantes de sua residência, no atual distrito do Riacho Grande ou em Santo André, como na ocasião em que atendeu Ermínia Kowarick, pertencente à rica família proprietária do lanifício homônimo, localizado nas proximidades da estação ferroviária, oportunidade em que, seja pela distância ou condição financeira da parturiente, aconteceu o parto mais caro anotado no livro, pelo menos cinco vezes maior que o valor médio.

No livro, algumas vezes, o nome da futura mãe era substituído ou acompanhado pelo nome do marido: “Mer. del selero, Arthur”, indicou em 11 de julho de 1903, e “ Maria Setti, do Adelelmo”, anotou em 12 de dezembro de 1903, no nascimento de um dos filhos do empresário do ramo dos transportes, cuja família construiria a futura empresa mais importante do setor na cidade.

O caderno guarda ainda o que talvez sejam os únicos registros circunstanciados das atividades médicas do Doutor José Luiz Fláquer, o político mais importante da região, a quem a parteira recorreu algumas vezes, requisitando sua presença, em ocasiões em o parto em curso apresentava complicações muito graves.

Entre 1902 e 1923, Fantinati atendeu a mais de 1350 partos em São Bernardo, com uma média estimada em torno de 62 partos por ano e de 5 por mês (2). Mas Therezina não era a única parteira do município (3). Mesmo quando, no início de sua atividade profissional, a quantidade de nascimentos na região era menor, ela não era responsável por mais que 13% dos partos realizados no município. Mulheres mais velhas – sejam vizinhas ou familiares, além de outras parteiras “leigas” –, deviam ser as responsáveis por uma grande parcela dos partos que ocorriam na região, da mesma maneira que ocorria no restante do país, nessa época. Quando era possível, também poderia ocorrer o recurso a um médico ou parteira com alguma formação especializada na área de medicina (4).

Neste período, no município de São Bernardo, os partos geralmente aconteciam nas residências das parturientes. A mortalidade infantil era muito alta. Por exemplo, no ano de 1906, para um total de 625 nascimentos registrados no território da atual região do grande ABC, foram atestados 159 óbitos de crianças com até 3 anos de idade, sendo que, deste total, 110 faleceram antes de completar 1 ano, o que aponta para uma taxa de mortalidade infantil de 176 óbitos por mil crianças nascidas vivas (5), um valor 14,7 vezes maior que a taxa nacional registrada no ano de 2019, que era de 11,7 óbitos por mil nascimentos (6). Imagens-> Esq: Therezina Fantinati, em frente à sua residência. 1930. Dir: Livro com as anotações dos partos realizados por Fantinati. Abaixo: Meninas da turma feminina da escola da Vila de São Bernardo, que funcionava no local onde hoje está a Praça Lauro Gomes. 1912. É muito provável que pelo menos algumas destas meninas, nascidas nas décadas de 1900, tenham vindo ao mundo pelas mãos de Therezina. Pesquisa e texto: Centro de Memória de S.B.C.

Notas
(1) – Entre as folhas avulsas que foram encontradas no interior do documento aparece um registro contábil do casal, mostrando que, durante o ano de 1912, Therezina recebeu 1,3 contos de réis de rendimentos líquidos apenas pela realização de partos, enquanto que seu marido Vitório, que exercia a profissão de alfaiate, auferiu apenas 35 contos de réis. 
(2) – Livro de anotações da parteira Therezina Capitanio Fantinatti. 1902-1923. 
(3) – Theresa Thomé, parteira italiana formada na Faculdade de Veneza, exerceu a profissão em São Bernardo na década de 1890. Cf. Inspetoria Geral de Terras, Colonização, Imigração do Estado de São Paulo. Núcleo Colonial de São Bernardo/Sede. Acervo: Arquivo do Estado de São Paulo. Requerimento de Theresa Thomé (cod. E01827). 
     – Em 1911 se registra a atuação da parteira Angelina Palmieri, na Rua Marechal Deodoro. Cf. Câmara Municipal de São Bernardo. Imposto de Indústrias e Profissões. p.10.
(4) – Cf. Priori, Mary Del. Histórias da Gente Brasileira. V.3. Memórias – República. (1889-1950). São Paulo: Editora LeYa, 2017. p. 395, 398. 
     – Cf. Brenes, Anayansi Correa Brenes. História da parturição no Brasil, século XIX. Cad. Saúde Pública vol.7 n.2. Rio de Janeiro Abr./Jun. 1991. p.1-2.
(5) – Cf. Repartição de Estatística e do Arquivo de São Paulo. Anuário Estatístico de São Paulo – 1906. v.1 t.1. São Paulo: 1908. p. 210. (Acessível em: https://bibliotecadigital.seade.gov.br/.../index.php...).
(6) – Cf. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Tábua completa de mortalidade para o Brasil – 2019: Breve análise da evolução da mortalidade no Brasil. Rio de Janeiro, 2020. p.7. (Acessível em https://biblioteca.ibge.gov.br/.../per.../3097/tcmb_2019.pdf).
(7) – Curiosamente, embora tenha muitas páginas em branco, o livro de Fantinati propriamente dito só registra os partos realizados até o ano de 1912. A partir daí as anotações foram feitas em folhas avulsas, sendo que muitas delas vinham com o timbre da “Fiação de Seda Nacional”, a indústria pertencente à Therezina.
Acervo: Centro de Memória de S.B.C., exceto quando indicada outra fonte.