Em 1956, a indústria têxtil de S. Bernardo do Campo era a sexta mais importante do Estado de São Paulo, ficando atrás apenas dos parques manufatureiros da capital paulista e de  centros tradicionais do setor, como Santo André, Jundiaí, Sorocaba e Americana. Empregava então cerca de 3500 trabalhadores em 18 estabelecimentos distintos (1). Deste total, cerca de 3350 eram propriamente operários, que recebiam um salário mensal médio de  Cr$ 3285,00 mensais, valor 37% superior ao salário mínimo vigente no primeiro semestre daquele ano (2). As três maiores empregadoras do setor,  Sociedade ELNI de Produtos Manufaturados (3), Fiação Lidia - I.R.F. Matarazzo,( 4) e Fiação e Tecelagem Tognato S/A (5), haviam se instalado há menos de uma década no município, atraídas, sobretudo,  pelas boas oportunidades logísticas criadas através da inauguração da Via Anchieta, em 1947. Eram - as três - fábricas de grande porte, com plantas industriais constituídas  de grandes galpões e capazes de acomodar várias centenas de trabalhadores.
 
A situação do setor  naquele ano indicava uma expansão extraordinária, ocorrida no decorrer da década precedente. De fato, em 1945, existiam apenas seis empresas no ramo, que empregavam um total de 532 pessoas. As duas mais importantes eram  então fábricas  de médio porte  cujas origens remontavam às  décadas de 1910 e 1920, momento da fundação da indústria têxtil no município: a Tecelagem de Seda Vila de São Bernardo, de 1911, que contava com 155 colaboradores, e a Tecelagem das Indústrias Pelosini - que era denominada Santa Filomena no final dos anos 1920 - com 187 empregados. Se destacavam também a Tecelagem AIDA, sucessora da Tecelagem Sul- Americana, de 1924, e a Tecelagem  João Calil, instalada na Travessa Marechal Deodoro, com 97 funcionários.  O  número de empregados  do setor em meados da década de 1940, apesar de pequeno em relação àquele que seria apresentado no futuro,  representava 27% da força de trabalho industrial  do município, ficando atrás apenas das cifras apresentadas pela indústria moveleira, que abrigava então  60% dos trabalhadores da indústria da cidade (6).
 
Entre as empresas têxteis que existiram na cidade na década de 1950 estavam também:  a importante Retorcedeira Ipiranga, ativa na Avenida Caminho do Mar entre a segunda metade dos anos 1940 e o início da década de 1970; a Cardilã, localizada às margens do KM 13,5 da Via Anchieta (7); o grande Cotonifício São Bernardo, existente na Avenida César Magnani, no Bairro Paulicéia, entre 1951 e 1999 (8); a pequena Velutex, na Rua Rafael Thomé, no Bairro Rudge Ramos (9); a Fiação Pessina, que resistiu, inicialmente também no Rudge Ramos, e depois, na Rua M.M.D.C, na Paulicéia, até a década 2000, quando empregava quase 300 funcionários (10); e, ainda, a efêmera Anchieta Têxtil (11) e a  Fatio Fabril - Indústria de Linho, localizada na Vila Euro (12).  Em 1968, entre outras empresas , podem ser destacadas, a São Carlos Tecidos para Guarda-Chuvas, e as  tecelagens Ismarta - na Paulicéia - e Eridânia - na Rua Municipal (13).
 
Em 1970,  o ramo  continuava apresentando tendência de crescimento no município, ainda que, no contexto de  enorme expansão  dos setores automotivo, mecânico e metalúrgico,   representasse apenas 7% de sua força de trabalho industrial.  O parque têxtil são-bernardense era  então  o quarto maior empregador do setor no  Estado de S. Paulo, com  4473 trabalhadores, em 25 estabelecimentos. Contudo,  o salário médio dos funcionários correspondia então a dois salários mínimos e estava entre os menores pagos entre os  ramos industriais presentes no município (14).
 
Ao final dos 15 anos seguintes, o setor voltou a apresentar crescimento na cidade, atingindo por volta de 5300 funcionários e 51 estabelecimentos em 1985 (15) (16). Porém, neste momento, mudanças significativas já haviam ocorrido. A ELNI e a Lídia/Matarazzo, duas das grandes empresas da década de 1950,  haviam fechado as portas. Por outro lado, 50 % dos estabelecimentos eram de porte muito pequeno, empregando até 20 pessoas. Contudo, as três grandes tecelagens  restantes - a já mencionada Tognato, o Cotonifício S. Bernardo e ELLO Artefatos de Fibras Têxteis -  ainda eram responsáveis por 48% dos 5291 empregos ofertados. Na época, a remuneração média do empregado têxtil de S. Bernardo – 2,75 salários mínimos - estava entre as maiores do Brasil entre os trabalhadores do mesmo setor (15) . A posição relativa do parque industrial têxtil local em relação ao das  demais cidades de São Paulo e do Brasil ainda era alta, correspondendo, ao oitavo e ao vigésimo segundo lugar nos respectivos  rankings  de quantidade de funcionários (18). 
 
Vinte  anos depois,  o número de pessoas empregadas no setor têxtil municipal havia caído drasticamente, como decorrência do processo de desindustrialização, o qual  que atingiu o município com força no período (19) .  Em 2005, apenas 2235 indivíduos atuavam no ramo no município.  Contudo, o número de empresas havia dobrado, graças ao aumento de micros e pequenas empresas. Indústrias grandes, com mais de 500 funcionários, não mais existiam, e as médias haviam se reduzido a seis unidades (20). O subsetor de confecção de peças para vestuário, que até a década de 1970 era relativamente pequeno, cresceu significativamente, passando a representar mais de 30% dos postos de trabalho gerados na indústria têxtil, a grande maioria deles localizada nos estabelecimentos de pequeno porte (21).
 
As  tecelãs eram as trabalhadoras mais comuns na indústria têxtil da primeira metade do século XX (22). Em 1985, ainda que as ocupações possíveis no ramo se houvessem diversificado consideravelmente, a categoria que incluía a  função – junto com as fiandeiras, tingidores e outros -  ainda abrigava mais de 54 % dos postos de trabalho. As costureiras perfaziam então  5,9%,  os trabalhadores administrativos 5,7%, mestres e assemelhados 2,1%, motoristas 1%, técnicos 1,6 %, e o restante se dividia em mais de 40 categorias ocupacionais diversas. O gerentes eram, em geral,  os mais bem remunerados, seguidos por engenheiros, chefes, técnicos e mestres, sendo que alguns chegavam a receber mais de 20 salários mínimos mensais.  Tecelãs e  trabalhadores  com  funções  assemelhadas, recebiam até três salários mínimos, em sua maioria, e as costureiras até dois  (23). Diversamente, em 2005, as tecelãs correspondiam a apenas 8 % da força de trabalho na área, as  fiandeiras 3,7%, enquanto as costureiras haviam elevado sua participação para 13%. Os alimentadores da linha de produção, uma categoria ocupacional que, ou não aparecia nas estatísticas de 1985 ou estava contabilizada entre os trabalhadores não especificados, perfaziam 17 % dos empregados e, em sua maioria, recebiam entre 1 e 3 salários mínimos, assim como a maior parte dos demias  trabalhadores da área no município (24).
 
Nas décadas de 1980 e 1990, se destacaram, entre outras empresas,  a já citada ELLO Artefatos de Fibras Têxteis (25), sediada na Avenida Moinho Fabrini, que chegou a empregar cerca de 600 funcionários em 1998, produzindo itens automobilísticos  e domésticos;  a fábrica de malas Primícia (26), localizada na Avenida José Fornari, no Bairro Ferrazópolis; a Algodoeira Lantieri/Olan (27), que funcionou por muitos na Rua Américo Brasiliense, no centro da cidade; e a fábrica de cobertores Jolitex S/A -  que se instalara por volta de 1975, na  Avenida Humberto Alencar Castelo Branco, local onde ainda permanece até os dias de hoje (28) (29).
 
 
 
Instalações da Elni na década de 1970. Acervo: Centro de Memória de S.B.C.
 
 
 
 
 
Notas:
(1) - Cf. SÃO PAULO (Estado). Departamento de Estatística. Produção Industrial do Estado de São Paulo, 1958. São Paulo: D.E.E., 1960. p. 24 e 30.
(2) - No período referido o salário mínimo era de Cr$ 2800,00 cruzeiros, valor  fixado pelo Decreto Federal  nº 35450, de 1954.
(3) - A Sociedade Elni de Produtos Manufaturados Ltda. Esta última foi fundada em 1945, na capital paulista, por imigrantes de origem espanhola, pertencentes à família Gomes Fernandes. Tendo iniciado o processo de instalação do seu complexo fabril na atual Avenida Redenção no ano de 1946, a empresa transferiu o endereço de sua sede para a cidade em 1950, período em que já havia iniciado suas atividades produtivas, as quais perduraram até 1970, aproximadamente. Especializada na fabricação de fios e tecidos de algodão, a Elni chegou a empregar 500 funcionários em 1953, tendo sua história marcada por conflitos trabalhistas, como o que ocorreu em 1957, quando 300 operários demitidos apelaram à Justiça do Trabalho para receber os valores referentes à indenização a que julgavam ter direito. Em 1971, as instalações do complexo fabril da empresa foram ocupadas pela estatal AGESBEC – Armazéns Gerais e Entrepostos São Bernardo do Campo – e até hoje pertencem à prefeitura municipal, abrigando a Secretaria de Desenvolvimento Social e Cidadania e a Coordenadoria de Ações Para a Juventude. Uma circunstância curiosa em relação à empresa é que sua denominação, provavelmente, faz referência aos nomes das esposas de seus dois diretores e principais proprietários, Evaristo Gomes Fernandes e José Gomes Fernandes. A prática de batizar empresas do setor têxtil com nomes de mulheres pertencentes às famílias dos proprietários era comum, como pode-se verificar no caso da Fiação Lydia e da Tecelagem Aida, ambas denominadas na mesma época e estabelecidas em São Bernardo. A palavra Elni derivaria, então, da junção das duas primeiras letras dos nomes de Elida Cianciose Gomes, esposa de Evaristo, e de Nice Salgueiro Gomes, esposa de José.
(4) - Cf. Jacobine, Rodolfo Scopel. A História da Tecelagem Tognato. Acervo: Centro de Memória de S.B.C.
(5) - Cf. Jacobine, Rodolfo Scopel. A Matarazzo em São Bernardo: nos tempos da Fiação Lydia. Acervo: Centro de Memória de S.B.C. 
(6) - Cf.  SÃO PAULO (Estado). Departamento de Estatística. Catálogo das Indústrias do Estado de São Paulo (exclusive o município da capital)- 1945.  1948. p.900-912.
(7) - Cf. Diário Oficial do Estado de São Paulo,   12/07/1958.  p. 59.  cad. Executivo. 
(8) - Cf. Oliveira, Joaquim (Ed.). CGI -  Cadastro Geral das Indústrias – Regiões ABCD, Guarulhos e Litoral. Ano VI. N° 4.  Edição 1999. São Bernardo do Campo, JV Editores Ltda, 1999.  p. 273.
(9) - Cf. Diário Oficial do Estado de São Paulo,   7/7/1953.  p. 73.  cad. Executivo. 
(10) - Cf. Oliveira, Joaquim (Ed.). CGI -  Cadastro Geral das Indústrias – Regiões ABCD e região, Guarulhos e São Paulo. Ano X. N° 8.  Edição 2003. São Bernardo do Campo, JV Editores Ltda, 2003.  p. 139.
(11) - Cf. PMSBC. Processo Administravo SB-1935/1950; Jornal Correio da Manhã, 19/5/1953.
(12) - Cf. Diário Oficial do Estado de S. Paulo 16/4/1958.p.84.cad executivo; Jornal “Folha de S. Paulo”,  27/3/55, Jornal “A Vanguarda”, 1956.
(13) - Cf. SÃO PAULO (Estado). Departamento de Estatística. Cadastro industrial: interior, 1969. São Paulo: D.E.E, 1968. p.180-191.
(14) - Cf. Recenseamento Geral de 1970-  Série Regional- Volume 4 . Tomo XVIII. Censo Industrial de São Paulo – 1970. p.138.
(15) - Cf. Ministério do Trabalho.  Bases Estatísticas RAIS e CAGED. Tabela RAIS vínculo - 1985. Subsetor indústria têxtil.  Municípios  X Tamanho dos Estabelecimentos
(16) - Cf. Ministério do Trabalho. Bases Estatísticas RAIS e CAGED. Tabela RAIS estabelecimentos - 1985. Subsetor indústria têxtil.  Municípios  X Tamanho dos Estabelecimentos
(17) - Cf. Ministério do Trabalho. Bases Estatísticas RAIS e CAGED. Tabela RAIS vínculo - 1985. Subsetor indústria têxtil.  Municípios  X Faixa remun. média.sm. 
(18) - Cf. Ministério do Trabalho.  Bases Estatísticas RAIS e CAGED. Tabela RAIS vínculo - 1985. Subsetor indústria têxtil.  Municípios  X Tamanho dos Estabelecimentos
(19 ) - Cf . Jorge Henrique Scopel Jacobine. Desindustrialização em São Bernardo. Acervo: Centro de Memória de SBC. 
(20) - Cf. Ministério do Trabalho. Bases Estatísticas RAIS e CAGED. Tabela RAIS estabelecimento -  2005. Subsetor indústria têxtl. São Bernardo do Campo. CNAE 95 Div X Tamanho dos Estabelecimentos.
(21) - Cf. Ministério do Trabalho. Bases Estatísticas RAIS e CAGED. Tabela RAIS vínculo - 2005. Subsetor indústria têxtil. São Bernardo do Campo. CNAE 95 Div X Tamanho dos Estabelecimentos.  
(22) - Cf. Jacobine, Jorge Henrique Scopel. Trabalhadoras, trabalhadores e acionistas da antiga Cia. Tecelagem de Seda “Vila de São Bernardo”. Disponível no site oficial da Secretaria de  Cultura da Prefeitura Municipal de S.B.C. 
(23) - Cf. Ministério do Trabalho. Bases Estatísticas RAIS e CAGED. Tabela RAIS vínculo - 1985. São Bernardo do Campo. Subsetor indústria têxtil.  Ocupações (CBO Subgrupo)   X Faixa remun. média. sm. 
(24) - Cf. Ministério do Trabalho. Bases Estatísticas RAIS e CAGED. Tabela RAIS vínculo - 2005. Subsetor indústria têxtl. São Bernardo do Campo. faixa remun.média. sm.  X Ocupações ( CBO 2002- família) .  
(25) -  A empresa já estava sediada em S. Bernardo desde o início da década de 1960, incialmente na Rua Angelo Duzzi. Cf. Diário Oficial do Estado de São Paulo,   19/02/1963.  p. 10.  cad. Executivo. 
(26) - A Indústria Comércio Primícia S/A estava localizada em São Bernardo desde o início dos anos 1960.  Cf. Diário Oficial do Estado de São Paulo,   9/03/1962.  p. 46.  cad. Executivo. 
(27) - Cf. PMSBC. Relação de Indústrias -  Médias Indústrias. 1984; Ber, Alessandra. Cooperativa ressuscita algodoeira. In: Jornal Diário do Grande ABC online. 15/05/1999 | 18:59. 
(28) - Cf. Oliveira, Joaquim (Ed.). CGI -  Cadastro Geral das Indústrias – Regiões ABCD, Guarulhos e Litoral. Ano VI. N° 4.  Edição 1999. São Bernardo do Campo, JV Editores Ltda, 1999.  p. 274.
(29) - No final do ano de 2024, segundo dados do site oficial do  Ministério do trabalho (Bases Estatísticas RAIS e CAGED. Tabela RAIS vínculo – 2024 – São Bernardo do Campo, Tamanho do Estabelecimento X  Subsetor )   a maior  indústria têxtil de São Bernardo   tinha apenas 376 funcionários.  Além dela existiam outras  duas que contavam   com um número de funcionários que variava entre   100 e 250.  Todas as empresas restantes eram de pequeno porte. No total ainda trabalhavam no setor 1701 pessoas. 
 
 
 
 

Pesquisa, texto e acervo: Centro de Memória de São Bernardo

 

Alameda Glória, 197, Centro

Telefone: 4125-5577

E-mail: memoria.cultura@saobernardo.sp.gov.br

 

Veja esta e outras histórias da cidade no portal da Cultura:

https://www.saobernardo.sp.gov.br/web/cultura/tbt-da-cultura