A descoberta de ouro na região do atual estado de Minas Gerais, na última década do século 17, e no centro-oeste do país, na década de 1720, trouxe mudanças significativas para a economia e a política da Capitânia de S. Paulo. As intenções da coroa portuguesa em exercer um controle mais eficaz e direto das regiões auríferas estavam entre os principais motivos que fizeram com que São Paulo perdesse grande parte de seu território entre 1720 e 1738, e, finalmente, fosse destituído de sua autonomia administrativa em 1748, sendo anexado ao Rio de Janeiro (1).
No campo econômico, a agricultura mercantil baseada na exportação de trigo e outros produtos para o Rio de Janeiro e outras localidades, via Porto de Santos, sofreu uma acentuação em seu declínio, o qual remontava à década de 1670 (2). Empobrecida, a economia paulista foi reorientada para o abastecimento do inflacionado mercado mineiro - através do uso tropas de muares adquiridas no sul do país - e, também, das monções que partiam de Porto Feliz rumo à Cuiabá, por via fluviais.
O território que hoje abriga São Bernardo do Campo era então cortado pelo Caminho do Mar, o qual era margeado por propriedades agrícolas e uma população escassa. A localidade era comumente referida – sobretudo no início do século – como “Borda do Campo” e fazia parte da zona rural da capital paulista.
O primeiro registro da época sobre a região remonta ao ano de 1716. Diz respeito à doação de uma sesmaria à Antonio Pires de Ávila. O território da mesma abrangia parte do atual Município de Santo André e do Bairro Baeta Neves. Ávila foi um militar envolvido em conflitos armados no Rio de Janeiro. O termo de concessão das terras atesta, pela primeira vez, a existência de elementos da toponímia da região ainda em uso nos dias de hoje, sendo mencionados o “Rio dos Couros,”, o “ Ribeiro Issrricantam (Saracantã)” e o Itororon (Itororó). Em 1748, sua filha vendeu, junto ao marido, Thomé da Silva Dutra, um sítio nesta sesmaria. A escritura do imóvel, dizia que o mesmo localizava-se na “paragem Santo André”, sendo esta a primeira documentação conhecida do topônimo desde muitas décadas. Este documento foi um dos fundamentos da tese, sustentada pelo pesquisador Wanderlei dos Santos, na década de 1990, de que a extinta vila de Santo André da Borda do Campo se localizava, de fato, no território do atual município Santo André (3) .
Um ano depois ocorreu um fato que iria ter importantes conseqüências no futuro da da região. O mosteiro paulistano de São Bento decidiu ocupar as terras da sesmaria que havia recebido em 1637, através da doação de Miguel Aires Maldonado. Uma Capela dedicada à S. Bernardo de Claraval foi construída na sede da propriedade. que passaria a ser conhecida por Fazenda São Bernardo. Em 1725, as atas da Câmara Municipal de São Paulo assinalaram a convocação de dois moradores - André Teixeira e Domingos Coelho Barradas - para contribuir no concerto do “Caminho da Serra do Mar”, no “Bairro de São Bernardo e Caaguaçu” (4), sendo este o primeiro registro conhecido do uso oficial da expressão “São Bernardo” em referência à região do atual município, e, também um indicativo da importância da fazenda beneditina para a administração local. Ocupando uma longa extensão de terras, sobretudo na margem oeste do Rio dos Meninos, a propriedade dos monges abrangia áreas dos atuais bairros do Rudge Ramos, Anchieta, Centro, Planalto, Bairro Assunção, Demarchi, entre outros. Era dedicada, sobretudo, ao cultivo de milho, feijão, mandioca e arroz, além de também abrigar rebanho de gado. Se tornou referência para a população dos seus arredores devido aos serviços religiosos prestados na capela - batismos, missas e enterros, a qual também foi o primeiro templo duradouro a existir nas terras doa atual município (5).
Em 1765, o Rei de Portugal, Dom José I, restaurou a Capitânia de São Paulo, sobretudo, por razões militares, devido à necessidade de defesa das terras do sul do país, recentemente invadidas pelos espanhóis, mas também com vistas no seu melhor aproveitamento econômico (6). O fidalgo português Dom Luiz Antônio de Souza Botelho Mourão, conhecido como Morgado de Mateus, foi designado como governador e capitão-general da capitânia. Buscou fortalecê-la militarmente, através de ações como a reorganização de companhias de ordenanças, além de incentivar o povoamento e a produção agrícola. Para levantar os nomes dos homens disponíveis para recrutamento nas diversas modalidades de tropas existentes, empreendeu recenseamentos anuais a partir de 1766, os quais constituíram a primeira série de documentos demográficos sobre São Paulo e também sobre o Bairro de São Bernardo (7) . Em 1779, o censo referente a este bairro indicava a presença de 1712 moradores, sendo 615 escravos e 1097 livres. Entre os últimos, 147 eram pretos ou pardos, sendo brancos os restantes (8). Em São Paulo, o século XVIII foi o tempo da gradual substituição do trabalho escravo indígena – predominante no século anterior, pelo africano, cujos números tenderam a aumentar sobretudo após a proibição definitiva do cativeiro dos primeiros. Daí se infere que, provavelmente, a grande maioria dos escravos contabilizados, entre 1765 e 1798. nos recenseamentos de S. Bernardo, eram de origem africana, ainda que ascendentes indígenas pudessem ser comuns tanto entre os cativos, quanto entre os livres.
A estratégica estrada, por onde iam e vinham, desde o século XVI, autoridades, comerciantes e viajantes comuns, é um dos principais motivos das referências à região na documentação do século. O mal estado da via era fonte de preocupações freqüentes, uma vez que o comércio da capitânia com o Porto de Santos passava necessariamente por ela. Embora escasso nas décadas centrais do século, este comércio floresceu nos anos 1790, devido ao surgimento do ciclo da cana-de-açúcar no oeste paulista e a construção da Calçada do Lorena (1792), obra de engenharia que facilitou a até então penosa passagem de animais de carga no trecho de descida da Serra do Mar. De fato, desde 1789, o governador Bernardo José de Lorena já havia tornado obrigatório o escoamento do comércio paulista pelo porto santista (9), o qual exportava, em 1799, além de açúcar - principal produto da capitania -, arroz, algodão, aguardente de cana, café, couros, taboados, madeiras, goma , anil e farinha de trigo (10) . O contexto de expansão agrícola e mercantil nas terras paulistas fez surgir novas oportunidades econômicas nos arredores do Caminho do Mar, como o aluguel de animais para transporte de cargas, atividade à qual já se dedicavam diversos moradores de S. Bernardo em 1798.
Ainda em relação ao penúltimo ano do século XVIII, o recenseamento de S. Bernardo informava a presença de 238 “fogos”, isto é, domicílios. Dentre estes, 147 declararam que tinham a agricultura como atividade econômica, produzindo, sobretudo, milho, feijão e farinha de mandioca. Os praticante de ofícios artesanais que não mencionaram produção agrícola eram 30 - fabricantes de telhas e louças, sapateiros, carpinteiro, ferreiro, seleiro, fiandeiras entre outros. Os restantes eram taberneiros, vendedores de lenha, criadores de animais e até mesmo dependentes de esmolas (11).

Trecho de mapa do mapa “Costa Sudeste do Brasil” - século 18 , focalizando o então Bairro de S. Bernardo, cortado pela Estrada do Mar.
Acervo: Coleção Morgado de Mateus. Biblioteca Nacional.
Notas:
(1) - Cf. Belotto, Heloísa Liberalli. Razões de Estado: a extinção e os primórdios da restauração da Capitania de S. Paulo(1748 -1775). In: Odalia, Nilo; Caldeira, João Ricardo de Castro (orgs.). História do estado de São Paulo/A formação da unidade paulista - Vol. 1: Colônia e Império. São Paulo: UNESP, 2010. P. 105-107,110.
(2) - Cf. Monteiro, John Manuel. Negros da terra - índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo, Cia. das Letras, 1994. p. 126.
(3) - Cf. Santos, Wanderley dos. Antecedentes Históricos do ABC Paulista:1550-1892. São Bernardo do Campo, PMSBC, 1992. P. 23-27).
(4) - Cf. Atas da Câmara Municipal de São Paulo, 5 de setembro de 1725. In: Atas da Câmara Municipal de São Paulo 1720-1729 V.9.. São Paulo: Arquivo Municipal de S. Paulo, 1916. p. 428-429.
(5) - Cf. Jacobine, Rodolfo Scopel. No tempo da Fazenda São Caetano. Revista Raízes. São Caetano do Sul, ano XXIX, n. 55, p. 111-115, ago. 2017.
(6) - Cf. Belotto, Heloísa Liberalli. Idem. p. 116-119.
(7) - Cf. Jacobine, Rodolfo Scopel. A Freguesia de São Bernardo: aspectos socioeconômicos da região do ABC Paulista entre o tempo colonial tardio e a alvorada do Império. 2012. 69p. Artigo inédito, arquivado na Biblioteca Nacional e no Centro de Memória de S. B. C. p. 2.
(8) - Cf. Lista nominativa de habitantes de S. Bernardo e Caaguaçu - 1779. Acervo: Arquivo do Estado de S. Paulo - Número de ordem 155 (documentos microfilmados).
(9) - Cf. Jacobine, Rodolfo Scopel. Idem. p.33.
(10) - Cf. Silva, Maria Beatriz Nizza da. (org.). História de São Paulo Colonial. São Paulo, UNESP,2009. p.192.
(11) - Cf. Lista nominativa de habitantes de S. Bernardo e Caaguaçu - 1798.. Acervo: Arquivo do Estado de S. Paulo - Número de ordem 155 (documentos microfilmados).
Pesquisa, texto e acervo: Centro de Memória de São Bernardo
Alameda Glória, 197, Centro
Telefone: 4125-5577
E-mail: memoria.cultura@saobernardo.sp.gov.br
Veja esta e outras histórias da cidade no portal da Cultura:
https://www.saobernardo.sp.gov.br/web/cultura/tbt-da-cultura
