Surgida a partir de um loteamento urbano cujo processo foi iniciado  em 1949 (1) , a Vila Aurora está entre as mais antigas do Bairro Santa Terezinha, nas adjacências da região central de São Bernardo do Campo. Durante o século XIX, a área da vila, atualmente balizada pelas ruas Tiradentes, Progresso, Santo Antônio, José Maria D’Almeida e Virgílio Simonato, integrava  a antiga fazenda do Alferes Francisco Martins Bonilha, a qual foi vendida ao governo imperial e anexada ao Núcleo Colonial São Bernardo, sob a denominação de  Linha São Bernardo Novo, em 1877. Nesta época, os  lotes  números 23 e  24 desta linha - que abrangiam as terras da  atual  Vila Aurora e do Jardim S. Paulo  – foram adquiridos  pela família  Beisigel, constituída pelo casal alemão Carl e Maria, e seus dois filhos. Em 1897, o recenseamento do núcleo colonial (2) apontou que os Beisigel eram agricultores, alfabetizados, provavelmente protestantes, e que  residiram  por algum tempo  em  Santa Catarina - onde nasceu o único filho brasileiro do casal - antes de se instalar em São Bernado. Carl  já contava então com 70 anos de idade.  

Na primeira metade do século XX, estes lotes pertenceram ao italiano Giovanni Martin Bianco.  Constituíam ainda uma propriedade única rural, como as  que existiam no seu entorno. No local, Giovanni foi  produtor de leite e carvão, mercadorias que transportava em uma carroça para venda nas vizinhanças ou em São Paulo. Casou-se com Angela Aronchi  e teve extensa descendência residente na cidade (3).

As terras viriam a constituir a  Vila Aurora foram adquiridas por José Maria D’Almeida e parcialmente  destinadas para loteamento urbano  em 1949, mesmo ano do falecimento de Martin Bianco.  Nesta primeira fase a vila compreendia a área entre a ruas Tiradentes e Dois  de Outubro, sendo composta por 146 terrenos de cerca de 250 m², a maioria deles com 10 m de frente e fundo variando entre 22 e 28 ms (4).

Entre 1951 e 1952, o  Diário Oficial do Estado de São Paulo registrou o nome de dois dos primeiros moradores do local, através da publicação do anúncio de seus casamentos. Um deles era o operário R. Juvenal Rodrigues, de 24 anos,  que se casou com Marina Paniguel, moradora  da Rua Silva Jardim (5); e o outro,  Roberto Lago, de 18 anos, residente no imóvel nº 3 da  Rua Santo Antônio, que uniu-se em matrimônio com Dilce Marroco (6).

Em 1957, uma fotografia aérea mostrou que a localidade abrigava pouco mais de 50 casas (7). Neste mesmo ano, D’Almeida iniciou o loteamento da segunda parte da vila,  que compreendia  a área em que ele próprio  então residia, se estendendo desde a  Rua 2 de outubro até a via que hoje leva seu nome (8). Neste momento,  surgiram  então 107 novos  lotes na localidade, com dimensões semelhantes aos  mais antigos, além dois grandes terrenos públicos. Um deles deu origem à atual Praça  Ambrósio Zandonadi, na Rua Antônio Simionato.  O outro – que originalmente também se destinava a construção de uma praça - se tornou, na década de 1960,  a sede do – Grêmio Esportivo Vilas Unidas, pertencente à Sociedade Pró-Melhoramentos das Vilas Unidas, entidade que representa as vilas S. Terezinha, do Tanque,  Aurora, Jardins  S. Paulo e São Luiz, e Parque S. Bernardo, fundada em abril de 1958. Ainda neste mesmo ano, em uma nova fotografia aérea, a nova área loteada já  aparece  totalmente arruada (9).

No ano de 1963, segundo um documento relativo ao reemplacamento dos imóveis da região, as quatro principais ruas da vila contavam com mais de noventa construções (10). Entre seus moradores encontram-se membros das famílias Dantas, Lago, Santana, Gaeta, Franchini, Torrigia, Fonseca, Santos, Pereira, Brito, Nascimento, Correia, Andrade, Vicente, Rocco, Almeida, Silva, Castro, Wanni, Gerbeli, Rupinelli, Zanutto, Oliveira, Copola, Frutuoso, Cruz, Mucho, Castello, Lourenço, do Anjos, Puertas, Vieira, Dialich, Winter, Alvarenga, Zúculo, Ferreira, Freire, Fernandes, Souza, Secato, Albanez, Pícoli, Lima, Sarnoca, Cipriano, Fuzari, Toledo, Sabrizo, Thomas, Demarchi, Rezende e Ribeiro (11). A  comparação  desta lista de habitantes com outras  do final do século XIX e das primeiras décadas do século XX sugere que a maioria destas famílias era oriunda de migração relativamente recente, remontando a poucas décadas ou mesmo anos.  Esta hipótese se harmoniza com o fato de que, desde a segunda metade da década de 1940,  a cidade recebia  um forte fluxo migratório, gerado pela  alta demanda de  trabalho em seu  crescente parque industrial.

No início dos anos 1960, o  loteador José Maria de Almeida ainda morava na área.  Costumava emprestar seu terreno para realização de festas juninas organizadas pela Sociedade Pró-Melhoramentos das Vilas Unidas. O prefeito Lauro Gomes compareceu a uma delas e prometeu a disponibilização de um terreno para construção da sede social da entidade, a qual se tornaria realidade alguns anos depois. Contando até mesmo com uma biblioteca,  o espaço se tornaria uma referência na região para atividades de lazer, esportes e cultura. Entre os diretores da entidades nestes primeiros tempos estiveram Armando Rezende, Aparecido Lopes de Castro, Durvalino Ferraz, Eunízio Lopes de Oliveira e o político Fernando Leça do Nascimento – ex- deputado estadual e vereador. Ainda nas primeiras décadas, também colaboraram para a sociedade Jeremias de Oliveira Franco, Aristeu Cecato, José de Oliveira Silva, Tereza Bianco, Fernando Leonel Rocco, Luiz Lourenço, Jaime Catelan, Flávio de Almeida- filho de José Maria, e Luiz Rossi, conhecido como “Chato”, dono de um célebre bar na Rua Tiradentes, defronte para a Rua da Pátria, muito freqüentado pelos moradores da Vila Aurora na década de 1960 (12).

Ao longo do tempo, a vila tem exibido usos quase que totalmente residenciais, com raros ou às vezes nenhum estabelecimento comercial ou  prestador de serviços.  Foi sempre no entorno da localidade, sobretudo na Rua Tiradentes e na Avenida Prestes Maia,  que seus moradores  encontraram tais atividades. 

Um último dado  deve ser acrescentado à história  da localidade. É o fato de que  durante mais de quinze anos, até o final do ano 2024, a prefeitura municipal manteve,  no imóvel nº 175 da Rua Dois de Outubro, um importante equipamento voltado à saúde, a UBS Santa Terezinha. Este posto de saúde atendeu não somente aos moradores do Bairro Santa Terezinha, mas também de diversas regiões adjacentes.

              

Vila Aurora. Levantamento Aerotogramétrico. 1958. A imagem original pode ser consultada  no site  Geoportal Paulista.

 

 

Notas:

(1) - Cf. Jornal Folha de S. Bernardo, 26/5/1979, Suplemento Especial, p.2. O texto cita o processo administrativo PMSBC 1675/49 como primeiro documento referente ao espaço.

(2) - Cf. Estado de São Paulo. Inspetoria de Terras, Colonização e  Imigração. Livro de Matrícula dos Colonos do Núcleo Colonial de São Bernardo. (1877/1892). Acervo: Arquivo do Estado de São Paulo.

(3) - Cf. Gomes, Fábio. Origem das Famílias de São Bernardo do Campo – Famílias Tradicionais e Ilustres.Volume 3. São Paulo, EDICON, 2005. p.327.

(4) - Cf. Prefeitura Municipal de Bernardo do Campo. Planta PMSBC –L1-00075.

(5) - Cf. Diário Oficial do Estado de São Paulo.   19/08/1951. Cad. judiciário. p.18.

(6) - Cf. Diário Oficial do Estado de São Paulo.   31/07/1952. Cad. judiciário. p.22.

(7) - Cf. Prefeitura Municipal de Bernardo do Campo. Levantamento Aerofotogramétrico. 1957.

(8) – Cf.  Prefeitura Municipal de Bernardo do Campo. Planta PMSBC - L1-00073A) .

(9) - Cf. Geoportal Paulista. Levantamento Aerofotogramétrico. 1958.

(10) - A grande maioria destas casas era ocupada por seus proprietários. Apenas 17 eram alugadas.

(11) - Cf. Reemplacamento da Vila Aurora. 26/11/1963.

(12) - Cf. Jornal Folha de S. Bernardo. Idem.

 

 

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