Em 1890, segundo o recenseamento oficial do país, o recém instalado município de São Bernardo possuía 7276 habitantes, cifra bem menor que aquela apresentada pela grande maioria dos atuais bairros da cidade. Mas os padrões da época eram muito diferentes. Cerca de 50 % dos 990 municípios brasileiros possuíam menos de 10 mil habitantes, e apenas 2,3% tinham mais de 50 mil moradores. São Bernardo, cujo território abrangia então toda a atual região do Grande ABC, era mais populoso que 53 dos 136 municípios paulistas. Rio de Janeiro, Salvador e Recife eram as únicas cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes. A capital paulista era a 11ª maior urbe brasileira, com quase 65 mil habitantes, tendo mais do que dobrado sua população nos 18 anos anteriores, devido à intensificação da migração européia e o crescimento da economia cafeeira ( 1 ).
Pouco mais de quarenta anos antes, a Província de São Paulo possuía apenas 40 municípios. À exceção da capital, os 15 maiores entre eles apresentavam contingentes populacionais que variavam entre 11 e 8 mil indivíduos. Uma parte deles se concentrava na região do Vale do Paraíba – Taubaté, Areias, Lorena, Jacareí – e já era fortemente impulsionada pela nascente economia do café. Outros, a oeste, – Itu, Porto Feliz, Piracicaba – estavam ligados à produção e comércio de açúcar, facilitados, desde 1792, pela presença da Calçada do Lorena, que atravessava a Freguesia de São Bernardo. Nos arredores paulistanos existiam as vilas de Santo Amaro e Santa Isabel - constituídas no primeiro terço do século XIX – além de Santana de Parnaíba e Mogi das Cruzes, muito mais antigas, surgidas no início do século XVII. À exceção de Mogi, que contava com 10 mil moradores, todas tinham menos de 5 mil habitantes (2).
O desenvolvimento da economia cafeeira e a imigração européia tiveram um impacto profundo no Estado de São Paulo no final do século XIX. As cidades do oeste paulista, que possuíam então as terras mais férteis, cresciam e prosperavam, sobretudo os municípios de Campinas e Ribeirão Preto, que, no ano de 1900, atingiram 67 mil e 59 mil habitantes. Na mesma data, Santos, que abrigava o Porto pelo qual o café deixava o estado, chegara a 50 mil moradores, e a cidade de São Paulo, centro comercial e administrativo no qual as principais ferrovias e rodovias se entrecruzam, a 240 mil moradores, cifra mais de 3 vezes maior que aquela apresentada 10 anos antes, indicando o extraordinário crescimento do local, que se tornara então o segundo maior município do Brasil, ficando atrás apenas do Rio de Janeiro (3).
O município de São Bernardo contava então com cerca de 10 mil habitantes. Entre 1885 e 1895, a sede da vila havia conhecido um crescimento urbano relativamente importante no entorno da Rua Marechal Deodoro, entre a Capela Santa Filomena e a Rua Dr. Fláquer. Novos contingentes de imigrantes chegaram nestes anos, impulsionando a economia local. Na região de Ribeirão Pires, cujo núcleo colonial havia se instalado em 1885, o número de estabelecimentos comerciais foi multiplicado no decorrer da década de 1890 (4). Na Estação Alto da Serra, as obras de duplicação da ferrovia Santos - Jundiaí, por volta de 1898, levaram ao surgimento do núcleo urbano hoje conhecido como Vila de Paranapiacaba (5).
Na região do futuro distrito de Santo André, à época conhecido como Bairro da Estação, a instalação de importantes indústrias, nas margens da estrada de ferro, impulsionaram o crescimento urbano a partir dos últimos anos do século XIX, fazendo daquela localidade o principal centro econômico e demográfico da região a partir de meados da década seguinte. A mais importante delas foi a tecelagem de algodão que ficaria popularmente conhecida como “Ipiranguinha”. Entrando em plena atividade em 1892, sob a denominação de Fischer & Kowarick Jr. , a empresa chegou a empregar 93 funcionários em 1893 (6), mas foi à falência no primeiro semestre de 1894 (7). Foi recuperada em meados de 1895 (8), sob a propriedade e denominação de Silva, Seabra & Comp, época em que foi ampliada, com o número de operários chegando a 105, e a quantidade de casas a eles destinadas aumentando de 15 para 27 (9). Em 1899, empregava cerca de 300 funcionários e, em 1907, 500, o que fez dela a primeira indústria de grande porte a se instalar no antigo município de S. Bernardo. O Lanifício Kowarick, com 200 operários, surgiu em 1899, na mesma área. Também às margens da São Paulo Railway, mas, em São Caetano e em Ribeirão Pires, foram instalados, respectivamente, a fábrica de Sabão Pamplona e o moinho Fratelli Macciota. Na Vila de S. Bernardo, duas fábricas de charutos empregavam dezenas de funcionários. Todas elas atendiam à crescente demanda da capital paulista, e, pelo menos em alguns casos, também do interior do estado.
O surgimento destas empresas assinalou o nascimento da vocação industrial do município, atributo que, em 1907, quando foi realizado o primeiro censo industrial do Brasil, já o diferenciava da imensa maioria das outras cidades do estado. Segundo aquele censo, o município abrigava 834 operários, quantidade que, entre as localidades paulistas, era superada apenas por São Paulo, Sorocaba, Itu e Piracicaba (10).
Em 1920, com aproximadamente 2650 operários, o município continuava se destacando como centro industrial, ocupando o 10º lugar entre as 207 cidades do Estado de São Paulo. Ficava atrás apenas de algumas localidades com populações muito maiores que a sua : São Paulo, Campinas, Santos, Ribeirão Preto, Piracicaba, São Carlos - todas com mais de 54 mil habitantes, além de Sorocaba, Taubaté, Jundiaí, com mais de 44 mil moradores. Contando com 25215 munícipes, São Bernardo possuía a 55ª maior população do estado. Na Grande São Paulo, estava atrás apenas da Capital e de Mogi-das-Cruzes, que possuía 29 mil habitantes. Seus moradores se dividiam entre os distritos de S. André , com 7347 indivíduos, São Bernardo/Sede, com 6066, São Caetano, com 4689, Ribeirão Pires, 3628, e, por fim, Paranapiacaba, com 3485 habitantes (11).
Nesta época, já havia era possível observar um padrão claro na distribuição da plantas industriais na cidade. Fábricas de médio e grande porte, que envolviam empresários e capitais não oriundos do município, tendiam a se localizar às margens da estrada de ferro, sobretudo, no distrito de Santo André. Plantas de pequeno porte existiam por todo o município, mas em número significativamente maior em São Bernardo, onde, na maioria dos casos, surgiram a partir de iniciativas ligadas ao núcleo colonial que ali existira.
Finalmente, no ano de 1940, abrigando mais de 22 mil operários, o antigo município de São Bernardo - cuja denominação havia sido recentemente alterada para S. André – era, de longe, o segundo maior pólo industrial do Estado de São Paulo, superando todos os tradicionais centros fabris do interior, como Sorocaba, Taubaté, Piracicaba, Jundiaí, Campinas e Santos. Com 89 mil habitantes o município era o quarto mais populoso do estado e o que possuía a terceira maior população urbana – quase 70 % do seu total, ficando atrás, apenas de Campinas e da Capital. Com apenas 11685 habitantes, o distrito que cinco anos depois daria origem ao atual município de S. Bernardo do Campo, era mais populoso que 87 das 270 cidades do estado, mas pouco contribuía para os números expressivos apresentados pelo total da urbe, os quais ainda se deviam, sobretudo ao distrito sede de Santo André e ao de São Caetano (12). Ambos já abrigavam então empresas estrangeiras muito importantes, como a Rhodia, a General Motors e a Pirelli. Era a privilegiada localização do município, entre a grande metrópole paulista e sua cidade portuária, que lhe conferia estes seus traços peculiares, os quais o distinguiam em um Estado de São Paulo ainda majoritariamente rural e ligado à economia do café.

Primeira fotografia aérea do território de São Bernardo do Campo, tomada no dia 14 de abril de 1940, por iniciativa do governo federal. Além do centro da vila, a imagem mostra também áreas dos atuais bairros do Baeta Neves, no canto inferior esquerdo; do Nova Petrópolis, com as vias do loteamento original da década de 20 já traçadas, porém ainda quase desocupadas; do Ferrazópolis e do Demarchi, nos lados esquerdo e direto da sua parte superior, com seus territórios ainda rurais. Acervo do IGC – Instituto Geográfico e Cartográfico – Governo do Estado de São Paulo.
Notas:
(1) - Cf. Sinopse do recenseamento de 31 de dezembro de 1890. República dos Estados Unidos do Brazil. Rio de Janeiro: Oficina de Estatística, 1898.
(2) - Cf. Muller, Daniel Pedro. Ensaio d'um Quadro Estatístico da Província de São Paulo. In: Bassanezi, Maria Silvia C. Beozzo. São Paulo do Passado – Dados Demográficos – 1836-I. Campinas: NEP/Unicamp, 1998. p. 31.
(3) - Cf. Synopse do recenseamento de 31 de dezembro de 1900. República dos Estados Unidos do Brazil. Rio de Janeiro: Tipografia da Estatística, 1905. p. 100.
(4) - Cf. Procuradoria da Câmara Municipal de São Bernardo. Livro de Lançamento dos Impostos Municipais. Livro nº 1. 1890-1892. Acervo: Museu de Santo André O. Gaiarsa ; Câmara Municipal de São Bernardo. Procuradoria. Impostos diversos (1893-1899).
(5) - Cf. Câmara Municipal de São Bernardo. Informação anexa ao ofício da Câmara Municipal de São Bernardo, de 5 de julho de 1893, dirigido ao Diretor Geral da Instrução Pública do Estado, por Manoel J. de Oliveira Cata Preta, vice presidente da Câmara; Câmara Municipal de São Bernardo. Livro de registro do Imposto Predial (1900-1902).
(6) - Cf. Jornal “O Estado de S. Paulo”, 6 /9/1896. p.1.
(7) - Cf. Jornal “Correio Paulistano”, 7/4/1894. p.2.
(8) - Cf. Diário oficial do Estado de São Paulo. 13/7/1895.p. 14070.
(9) - Cf. Jornal “O Estado de S. Paulo”, idem.
(10) - Centro Industrial do Brasil. O Brasil, suas riquezas naturais, suas indústrias. Volume III – Indústria de Transportes e Indústria Fabril - 1907. p.117- 131. Rio de Janeiro, M. Orosco & Co , 1909.
(11) - Cf. Bassanezi, Maria Silvia C. Beozzo. São Paulo do Passado – Dados Demográficos – 1920. Campinas: NEP/Unicamp, 1999. p. 44.
(12) - Cf. Recenseamento Geral do Brasil, 1º de setembro de 1940 – Série Regional – Parte XVII –São Paulo – Tomo 2. Rio de Janeiro: Serviço Gráfico do Instituto do IBGE, 1950. p. 558
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