Com 5 km de extensão, a Av. Senador Vergueiro é uma das mais importantes e movimentadas vias da cidade, começando na altura do Jardim do Mar, passando pelo Bairro Anchieta e alcançando o coração do Rudge Ramos. Sua história está ligada à célebre Estrada do Vergueiro, construída sob a direção do empresário José Pereira de Campos Vergueiro entre 1862 e 1864. Essa estrada era uma variante da então danificada Estrada Velha de Santos, diferenciando-se de sua antecessora justamente em diversos trechos situados em São Paulo e São Bernardo (1), sendo o traçado da Av. Senador Vergueiro atual um desses trechos alternativos. É provável que, nesse caso específico, o empresário tenha aproveitado para transformar em estrada um caminho vicinal ainda mais antigo. Basta lembrar que, no traçado da atual avenida, existia, na altura de onde hoje está o supermercado Carrefour, a histórica Capela São Bernardo, edificada em 1717 pelos monges beneditinos, donos de uma grande fazenda na região. Essa capela foi amplamente utilizada pela população dos arredores para batizados, casamentos e sepultamentos durante quase todo o seu primeiro século de existência (2). Isso sugere que, embora a Estrada Velha de Santos não passasse por ali (seguindo, na época, aproximadamente o trajeto das atuais avenidas Redenção e Caminho do Mar), já devia haver uma rota vicinal para possibilitar o acesso da população local à capela.
De qualquer forma, o trajeto da atual avenida só vai aparecer nos mapas oficiais conhecidos já como parte da Estrada do Vergueiro, depois de 1864. É assim que ele surge, por exemplo, entre o fim do século XIX e o início do século XX, nos mapas do Núcleo Colonial de São Bernardo, onde cortava 12 lotes rurais da linha São Bernardo Velho e também delimitava, a leste, outros 5 da linha Rio dos Meninos (3).
A Estrada do Vergueiro era usada como rota para o escoamento até São Paulo da produção dos colonos (tanto agrícola quanto de madeira e carvão), feita por meio de carros de bois e carroças. Tendo sofrido com a falta de reparos da estrada desde a inauguração da linha ferroviária Santos–Jundiaí, em 1867 (que canalizou quase todo o transporte entre Santos e a capital), os colonos recém-chegados precisaram solicitar às autoridades sua manutenção. Em anúncio publicado no Jornal da Tarde em julho de 1879, eles reclamaram do péssimo estado das pontes da estrada, “rogando por muito favor a quem competir, para lançar os olhos sobre elas, visto que os pobres colonos, que moram em São Bernardo, lutam com muita dificuldade para trazer e levar gêneros” (4).
As condições de transporte locais melhoraram com a reforma da estrada feita por Arthur Rudge Ramos, executada entre 1914 e 1918, que a transformou em rodovia, facilitando o trânsito de carros e caminhões. Contudo, em trechos de São Paulo e de São Bernardo (do Bairro dos Meninos até pouco antes do início da Rua Marechal Deodoro), Rudge optou por reutilizar trechos da abandonada Estrada Velha, para não interromper o trânsito das carroças e carros na Estrada do Vergueiro durante a reforma (5). Com isso, o trecho que se tornaria a futura Avenida Senador Vergueiro ficaria como uma via secundária nos anos seguintes.
Isso só começaria a mudar a partir dos anos 1950, quando iniciou-se a urbanização nos terrenos rurais das margens da via, primeiramente mais concentrada no Rudge Ramos, com os loteamentos das vilas Vivaldi, Antonieta, Caminho do Mar e Marisa. No Bairro Anchieta, os loteamentos residenciais se situaram no lado ímpar (oeste) da Vergueiro, enquanto, no lado par, instalaram-se entre os anos 1950 e 1970 as indústrias APV do Brasil (equipamentos), Ferroenamel (química) e as metalúrgicas Vulcanos e Villares - esta última situada onde ficava a antiga Capela São Bernardo.
Com o povoamento dos arredores e a consequente necessidade de atender às demandas crescentes do fluxo de veículos, a estrada recebeu obras de alargamento, pavimentação e retificação, iniciadas na segunda metade dos anos 1950, mas que se estenderam até o início da década de 1970 (6). Em 1973 a via foi redenominada com o nome de Av.Senador Vergueiro, uma referência ao pai de José Vergueiro, o senador do Império Nicolau Vergueiro (7).
Ao longo das últimas décadas, o povoamento local cresceu, impulsionado principalmente pela construção de conjuntos de edifícios residenciais em alguns pontos da via. Também se expandiram o número e a diversidade de estabelecimentos comerciais e de serviços, que hoje incluem supermercados, bares, restaurantes, academias, concessionárias de automóveis, hotéis e instituições de ensino.
Nas imagens, vemos a Estrada do Vergueiro: acima, em 1977, na altura do n.753 (Praça Antonio Cecatto); abaixo vista aérea da mesma em 2003, na altura do cruzamento com a Av. Winston Churchill. Acervo: Centro de Memória de SBC
Notas:
(1) - Lima de Toledo;, B. Do Litoral Paulistano a Conquista da Serra do Mar. Revista Pós. N.8. 2000. FAU-USP
(2) - Dos Santos, Wanderley. Antecedentes Históricos do ABC Paulista. 1992. PMSBC.
(3) - Planta do Núcleo Colonial de São Bernardo, 1906. Arquivo do Estado de São Paulo
(4) - Jornal da Tarde, 31-07-1879
(5) - Rudge Ramos,A. Relatório sobre os Trabalhos Feitos na Estrada do Vergueiro, 1913-1920. PMSBC. 1967.
6 - Decretos PMSBC 65/1955, 115/1956, 787, 789, 791, 792, 801/1964; 861, 949, 972/ 1023, 1051/1965; 1135/1966; 1439, 1524/1967; 1996, 2111/1969 e 2670/1971; Lei 689/1958
(7) - Decreto 3385/1973