Em São Bernardo do Campo, na segunda metade do século XX, era comum ler e ouvir que a cidade era “Capital do Móvel e do Automóvel”. Era o que diziam a cultura popular, a imprensa e a publicidade difundida pela prefeitura municipal (1). De fato, o parque industrial automotivo da cidade foi, nos anos  80, o maior do Brasil (2).  A industria moveleira municipal, por outro lado, embora tenha sido a segunda maior do Estado de São Paulo durante a maior parte do século XX, nunca ultrapassou sua congênere da capital paulista e,  provavelmente, no âmbito nacional,  também deve ter ficado abaixo do parque moveleiro  do cidade do Rio de Janeiro ( 3).     
 
De qualquer forma, a importância da indústria de móveis de São Bernardo foi extraordinária.  No âmbito municipal, forneceu  mais da metade  dos empregos industriais entre as  décadas de 1920 e 1940, sendo superada pelos  ramos têxtil e automotivo apenas na década de 1950. No Estado de S. Paulo, manteve a posição de segundo maior polo desde 1929 até  1999 (4).
 
Em 1980, em números absolutos, o parque moveleiro são-bernardense estava próximo de seu  auge. Empregava então 4.285 pessoas, distribuídas em 142 empresas Em média, um trabalhador do setor recebia 2,5 salários mínimos mensais, valor que estava entre os mais baixos dentre os diversos ramos industriais do município, correspondendo a menos da metade das médias pagas pelos setores químico, mecânico e automotivo. Neste ano, o valor total da produção  do ramo foi de  cerca de 4 bilhões de cruzeiros, e o total de gastos salariais, atingiu 520 milhões, o que significa que a proporção de pagamento aos trabalhadores no total do valor dos móveis vendidos foi de 13%, uma taxa maior que a existente em alguns setores, como o têxtil e o automotivo (5).
 
Nessa época, ainda estavam ativas várias empresas tradicionais do setor, cujas origens remontavam aos  primeiros 35 anos do século XX. Seus proprietários eram descendentes de imigrantes italianos e alemães, chegados à cidade no final do século XIX. Localizavam-se todas na Rua Marechal Deodoro ou em seus arredores. A maioria delas vivia seus últimos anos: Irmãos Bellinghausen  e  Móveis Miele -  que ainda se destacavam como a quarta e a sexta maiores fábricas do ramo no município, e as cooperativas S. Bernardo e S. Luís. Outras duas - Irmãos Corazza e  Móveis S. Terezinha – chegariam ao ano 2000. 
 
Em 1981,  a maior fábrica de móveis de São Bernardo era, de longe,  a Lafer S/A, com centenas de funcionários (6). Estava  localizada no  Bairro Paulicéia, mas tinha  origem na capital paulista, tendo pertencido a Jacob Lafer (7). Em seguida, vinham a Móveis Artelar, com 236 colaboradores, que funcionava em um grande galpão na Rua Oneda, no Bairro Planalto; e a Litoral Móveis, com 130 trabalhadores, que estava sediada na Rua Olavo Bilac, na  Vila Euclides.  As restantes eram de pequeno porte: 13 delas possuíam entre 50 e 91 funcionários, e pelo menos 50 empresas empregavam até 45 colaboradores (8). 
 
Por volta de meados da década de 80, os números do setor  apresentavam uma  queda significativa em relação ao início do período. Além disso, no âmbito nacional, o ramo moveleiro de cidade havia sido ultrapassado pelos  polos industriais de  Bento Gonçalves e  São Bento do Sul,  da região sul do país (9). Em 1990, considerando em conjunto os ramos mobiliário e de fabricação de  produtos de madeira, o município ocupava apenas o 12º lugar entre os maiores empregadores do país, oferecendo 3612 postos de trabalho (10), contra  os 5330  que disponibilizava em 1980,  e os 4200 existentes em 1985, evidenciando uma contínua tendência de queda na área.
 
A mais brusca queda enfrentada pelo setor moveleiro municipal  ocorreu na primeira metade da década de 1990.  O total de empregos oferecidos caiu para 2.236 em 1995 – um decréscimo de quase 50 % em relação ao ano de 1980. Foi então que outros polos moveleiros emergentes  -   Arapongas (PR) e Ubá (MG) - ultrapassaram  o de São Bernardo, que apesar disto, ainda mantinha a histórica segunda colocação estadual (11). Além disso, o grau de fragmentação do setor havia  aumentado consideravelmente, com a quantidade de empresas chegando a 200.  Desse total, 120 possuíam menos de 10 funcionários, e apenas uma  possuía mais de 100 colaboradores (12).   
 
As possíveis razões para tal encolhimento envolvem as dificuldades representadas pela  concorrência com os novos polos moveleiros - com localizações  mais vantajosas, a crise econômica do governo Collor, além do processo de desindustrialização que afetou intensamente a região (13). Considerando  ainda o frequente caráter familiar e  a predominância de pequenas empresas no setor, é possível especular que a disponibilidade de  atividades econômicas mais rentáveis na região – acessíveis através de educação adequada - tenha atraído as novas gerações das famílias que tradicionalmente empreendiam no ramo, provocando o desinteresse pela continuação de muitos negócios.
 
De 1995 até o ano 2000, o ramo sofreu novamente uma pequena queda, com o número total de trabalhadores caindo para 2142, e o de estabelecimentos para 153 (14). Apesar de ser  ultrapassada, também no âmbito estadual, pelos parques fabris de  Votuporanga e Mirassol, a indústria moveleira são-bernardense chegou  ao final do século XX, ocupando a 10ª posição entre suas similares nacionais (15). Destacavam-se na cidade neste momento, além da já citada Litoral Móveis, as empresas Irmãos Borges (Bairro Assunção), Móveis Garante (Vila Duzzi), Móveis Flex (Bairro Batistini), Módulo Móveis e Decorações (Jardim Detroit), Móveis Todesco (Bairro Jordanópolis), Móveis Borsato (Centro) e por fim a remanescente da década de 1920, Irmãos Corazza, que contava então com 62 funcionários, e que fecharia as portas em 2002 (16).
 
No período aqui considerado, enquanto o comércio de móveis continuava se concentrando na Rua Jurubatuba, sua fabricação  seguia uma tendência de afastamento da Rua Marechal Deodoro e espalhamento por diversas vilas e bairros, a qual havia começado ainda na década de 1970 e persistiria para além dos anos 2000. Provavelmente as empresas buscavam menores custos na  aquisição ou aluguel de imóveis, bem como no pagamento dos  tributos a eles relacionados.  
 
Fábrica de Móveis Corazza. Rua Djalma Dutra. Década de 1980. 
 
 
 
Notas: 
(1) - Cf. Jornal “O Estado de S. Paulo”, 10/02/1974, p.10, Ed. Nac. e  17/09/1972, p.42, Ed. Nac. ; PMSBC.   Lei Municipal 4479, de 25/3/1997.
(2) - Cf. Ministério do Trabalho.  Bases Estatísticas RAIS e CAGED. Tabela RAIS vínculo – 1985,1986, 1987,1988, 1989.   Municípios  X IBGE – Subsetores.
(3) - Cf.  SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Agricultura, Indústria e Comércio.Diretoria de Estatística, Indústria e Comércio. Estatística Industrial do Estado de São Paulo - 1929.  São Paulo: Typ. Casa Garraux. 1930. p. 113;  SÃO PAULO (Estado). Departamento de Estatística. Produção Industrial do Estado de São Paulo, 1958. São Paulo: D.E.E., 1960. p. 42; Brasil IBGE.Recenseamento Geral de 1970-  Série Regional- Volume 4 . Tomo XVIII. Censo Industrial de São Paulo – 1970. p. 6-165.
(4) - Cf. Ministério do Trabalho.  Bases Estatísticas RAIS e CAGED. Tabela RAIS vínculo – Ibge Subsetor Madeira e Mobiliário.  1999,2000.   Municípios  X CNAE 95 DIV.
(5) - Cf. Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Industrial: 1980, São Paulo, dados gerais, 1980. Rio de Janeiro: 1984. t.2 pt.1 n.19, liii, 357 p. ( Censo Industrial, v.3 ). p. 176 e 177. 
(6) - Cf. PMSBC. Relatório de Indústrias. 1981.
(7) - Cf. Diário Oficial do Estado de S.P. 09/06/1964. Cad. Exe. p.89.
(8) - Cf. PMSBC. Relatório de Indústrias. 1981.
(9) - Cf. Ministério do Trabalho.  Bases Estatísticas RAIS e CAGED. Tabela RAIS vínculo – 1985.   Municípios  X IBGE – Subsetores.
(10) - Cf. Idem para o ano 1990
(11) - Cf. Ministério do Trabalho.  Bases Estatísticas RAIS e CAGED. Tabela RAIS vínculo – Ibge Subsetor Madeira e Mobiliário.  1995.   Municípios  X CNAE 95 DIV.
(12) - Cf. Ministério do Trabalho.  Bases Estatísticas RAIS e CAGED. Tabela RAIS Estabelecimento – Ibge Subsetor Madeira e Mobiliário. Município São Bernardo do Campo.  1995.   Tamanho dos estabelecimentos  X CNAE 95 DIV.
(13) - Cf . Jorge Henrique Scopel Jacobine. Desindustrialização em São Bernardo. Acervo: Centro de Memória de SBC.
(14) - Cf. Ministério do Trabalho.  Bases Estatísticas RAIS e CAGED. Tabelas RAIS Estabelecimento  e RAIS Vínculo – Ibge Subsetor Madeira e Mobiliário. Município São Bernardo do Campo.  2000.   Tamanho dos estabelecimentos  X CNAE 95 DIV.
(15) - Cf. Ministério do Trabalho.  Bases Estatísticas RAIS e CAGED. Tabela RAIS vínculo – Ibge Subsetor Madeira e Mobiliário.  1995.   Municípios  X CNAE 95 DIV.
(16) - Cf. Oliveira, Joaquim (Ed.). CGI -  Cadastro Geral das Indústrias – Regiões ABCD, -Guarulhos e Litoral. Ano VII. N° 5.  Edição 2000. São Bernardo do Campo, JV Editores Ltda,2000.  p.187-193 .
 
 

 

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