Nevino Antonio Rocco foi um importante personagem no cenário político e cultural de São Bernardo do Campo entre as décadas de 1960 e 1980, tendo atuado como jornalista, advogado e vereador. Nasceu em 1935, no local onde hoje está o trevo do km 23 da Via Anchieta – mais precisamente na antiga Rua Amélia. Seus pais eram italianos – nascidos na região do Vêneto - que migraram para o Brasil em 1927, junto com três filhos pequenos. Se estabeleceram provisoriamente na casa de um primo, Mariano Rocco, avô da futura primeira dama Marisa Letícia Rocco Casa (1). A família Rocco já estava estabelecida em São Bernardo desde 1887, quando os pais e os tios de Mariano adquiriram três lotes rurais da Linha Camargo, do Núcleo Colonial São Bernardo, a qual hoje corresponde ao Bairro Alves Dias (2). Estudou inicialmente no Grupo Escolar Vila de São Bernardo. Em 1947, cursou o preparatório para admissão ao ginásio na Escola Italo Setti – atual Colégio São José/Bom Jesus. Nesta época, trabalhou como ajudante na fábrica de Móveis dos Irmãos Margonari, na Rua Municipal. No ano seguinte, mesmo tendo sido aprovado no exame, não pode ingressar no Ginásio Santo André, por falta de recursos financeiros para o pagamento da matrícula. Passou então a trabalhar como mensageiro no Sindicato da Indústria de Construção e do Mobiliário de São Bernardo do Campo. Finalmente, por volta dos 14 anos de idade, conseguiu se matricular no Ginásio Américo Brasiliense, a única escola secundária pública então existente na região do ABC. Em 1955, concluiu o ensino médio na mesma instituição, e, em 1957, ingressou na célebre Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, onde se formou em 1960. Desde 1953, enquanto estudava à noite , trabalhou na Brasmotor - uma das pioneiras da indústria automotiva local, inicialmente como mensageiro, e depois, como taquígrafo e assistente do seu célebre diretor Hugo Miguel Etchenique (3).
Sua ligação com a imprensa começou quando cursava a faculdade e se tornou colaborador do Jornal “A Vanguarda de Rudge Ramos”, que ainda tinha um público restrito. Em 1961, assumiu a direção da publicação, que então deixou de ter dedicação especial ao Rudge Ramos, passando a se chamar apenas “A Vanguarda”. Junto à Folha de São Bernardo, a publicação dirigida por Nevino foi o principal jornal da cidade na maior parte das décadas de 1960 e 1970. Nevino permaneceu na direção do periódico até maio de 1985, quando a publicação já havia alterado sua denominação para Folha do ABC, com a qual permanece até os dias de hoje (4).
Embora Nevino escrevesse regularmente no periódico, o jornalismo não era a atividade que ocupava a maior parte de seu tempo. Vivia da advocacia. Exerceu a profissão até o fim da vida, tendo sido um dos fundadores da subseção de São Bernardo do Campo da Ordem dos Advogados do Brasil, da qual foi presidente entre 1975 a 1979 (5).
Na esfera política, Nevino iniciou sua atuação como membro do Diretório Municipal do Partido Socialista Brasileiro. Mais tarde, ajudou a introduzir no município o Partido Libertador, pelo qual se candidatou a vereador em 1963, obtendo 100 votos (6). Em 1968, quando era filiado ao MDB, novamente concorreu à uma vaga na Câmara Municipal. Finalmente, em 1972, concorrendo pela ARENA, conseguiu se eleger para o posto de suplente , tendo assumido a vereança provisoriamente em algumas oportunidades por ocasião da licença de José Pereira de Araújo (7).
Além de uma pequena biografia inacabada, Nevino concedeu três depoimentos - dois orais e um escrito - ao Centro de Memória de São Bernardo do Campo, deixando preciosas descrições de fatos, locais e personalidades do passado do município. Abaixo destacamos algumas delas:
Os primeiros anos de vida, transcorridos na chácara onde nasceu, foram narrados em terceira pessoa em sua biografia: “Seu berço, uma caixa vazia de cebolas descartada pelo vizinho armazém de secos e molhados de João Capassi. De lembrança, conserva uma cicatriz na bochecha direita (...), fruto de arranhão com o prego não removido no desmonte essa embalagem. (...) Depois (...) lembra-se ter passado a dormir numa cama improvisada sobre dois paus fincados no chão, presa à parede lateral do velho casarão em que nascera, até que seu irmão, Luigi, então com dez anos, ajudante do pai na marcenaria, recolheu, do lixo, um divã de imbuia descartado e transformou-o numa bela caminha, onde passou a dormir enquanto nela coube (...). Serviu-lhe até a adolescência, quando já não cabia nessa cama e foi agraciado com outra confeccionada por seu pai. O travesseiro era aviado com pano de saco de farinha de trigo, enchido com penas selecionadas de marrecos da criação própria. Vestia roupa feita por sua mãe, muitas vezes com tecidos de cânhamo dos lençóis do seu enxoval de casamento ou do pano dos sacos vazios de farinha de trigo,adquiridos nos armazéns de secos e molhados (...). Vestia, também, roupas presenteadas ou descartadas dos filhos mais crescidos dos seus padrinhos,de compadres e amigos benfeitores da família. Lembra-se do banho de regador que, na infância,recebia de sua irmã Regina Itália, ao lado do casarão onde nasceu. Era aquele regador utilizado para o jardim e a horta. A casa não tinha banheiro. Para as necessidades fisiológicas, uma privada no quintal, lateral à cocheira da vaca Nininha, e um urinol de ferro esmaltado sob a cama para uso noturno. Alimentos pós desmame, eram quase exclusivamente de criações e horta próprias da família, uma área aproximada de dois mil e duzentos metros quadrados” ( 8 ).
Acerca do primeiro grupo escolar da Vila de S. Bernardo, onde estudou, Rocco deixou observações únicas, tanto sobre seu prédio como sobre as práticas cotidianas dos alunos: “Fui admitido em 1943 e conclui o curso em 1946. Era o velho casarão do Bonilha, na esquina da Rua Tenente Salles com a Rua Marechal Deodoro. No térreo, à direita da edificação, junto à Rua Tenente Salles, com entrada pela Marechal, funcionava a Delegacia de Polícia. Nos fundos, a cadeia pública, sob a minha sala de aula. Ao centro, a entrada principal e monumental da escola, sempre muito bem vigiada pelo seu Maneco, o guardião Manoel de Lima. À esquerda, a agência dos correios. Atendiam Lúcia Delegá ou Luiz Barreira. Ao lado do prédio, à sua esquerda, largo portão dava acesso ao pátio dos alunos, que dispunha de bancos e de algumas árvores que conhecíamos por "guatirão", que produzia pencas de frutinhas roxas que serviam para brincadeira e eram disparadas, por uns contra outros, com sopro em gomos de bambu. Umas duas ou três dessas árvores resistiram à demolição e continuavam próximas à calçada da Rua Marechal até há pouco tempo. ○ terreno era todo fechado com muralha de dois metros de altura e meio ou mais de espessura, tudo de taipa, tal qual a edificação cujas paredes teriam uns oitenta centímetros de espessura. 0 pavimento térreo abrigava, entre a delegacia e o corredor de entrada, uma sala de aula, em que cursei o primeiro (1943, Professora Rita Sandovile) e o terceiro (1945, professora Dinorá Lopes) anos. No lado oposto, junto à entrada principal, a secretaria da escola. Mais a agência do correio, com entrada pela via pública. Aos fundos, de um lado, a cozinha e, de outro, um salão em que era servida a sopa escolar sob o comando do sr. Pedrinho e sua mulher, dona Isola, e do Osmar Bassoli. Com acesso por uma larga (uns três metros) escada em madeira de lei, o pavimento superior abrigava a Diretoria, do Professor Ascânio de Azevedo, e umas seis salas de aula (...). Nos intervalos, não raro, algum colega pulava a janela e descia pelos tubos das calhas. Dos fundos cadeia saltava o muro e matava a aula jogando futebol no campo do Palestra. Quando não, nadando no Rio dos Meninos, hoje enclausurado nas galerias da Avenida Brigadeiro Faria “ ( 9 ).
Sobre a relação, muitas vezes crítica, do jornal “A Vanguarda” com prefeito Lauro Gomes, Nevino relatou que: “ A tiragem era de 4 ou 5 mil exemplares. Vendia tudo. O Lauro Gomes (ocasionalmente) saia da chácara e comprava a edição inteira lá no Ziza. Existiam duas bancas de jornal aqui em São Bernardo. A do Ziza, lá no Rudge Ramos, e a do Antonino Assumpção, aqui na Marechal Deodoro. Se ele passava lá, via alguma coisa que ele não gostava e ele comprava tudo, o Ziza me ligava. Aí eu já ligava para a gráfica Cinelândia em S. Paulo e mandava rodar mais. Eu chegava as 5 ou 6 horas da tarde com os jornais e tinha fila” (10).

Nevino Rocco aparece ao centro, durante o ato de doação da coleção de “A Vanguarda” ao acervo municipal. 1982. À esquerda está Fernando Leça, então Secretario de Educação, Cultura e Esportes, e, à direita, Tércio Nelli, na época diretor do Departamento de Cultura.
Notas:
(1) - Cf. Depoimento escrito por Nevino Rocco, produzido em resposta a um questionário enviado pelo Centro de Memória de SBC . 2009.
(2) - Cf. Estado de São Paulo. Inspetoria de Terras, Colonização e Imigração. Livro de Matrícula dos Colonos do Núcleo Colonial de São Bernardo. (1877/1892). Acervo: Arquivo do Estado de São Paulo
(3) - Cf. Rocco, Nevino. Banco de História Oral. 2009.
(4) - Cf. Ibidem.
(5) - Cf. Medici, Ademir. Morre o advogado Nevino Rocco. Jornal Diário do Grande ABC online, 17/01/2024.
(6) - Cf. Depoimento escrito por Nevino Rocco, produzido em resposta a um questionário enviado pelo Centro de Memória de SBC . 2009.
(7) - Cf. https://www.camarasbc.sp.gov.br/vereador/jose-pereira-de-araujo-439. Assumiu em 31 de outubro de 1973, e , segundo, o Jornal “A Vanguarda”, também em agosto de 1975.
(8) - Cf. Rocco, Nevino. Minha História. Autobiografia inacaba e não publicada, doada ao Centro de Memória no ano de 2019.
(9) - Cf. Depoimento escrito por Nevino Rocco, produzido em resposta a um questionário enviado pelo Centro de Memória de SBC . 2009.
(10) - Cf. Rocco, Nevino. Banco de História Oral. 2009.
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