Em 1913, o italiano Roberto Capri tornou-se  o primeiro autor a escrever e publicar uma descrição do município de S. Bernardo um pouco mais extensa e pormenorizada do que aquela oferecida por pequenos verbetes de dicionário e listagens de dados em almanaques. No livro “O Estado de São Paulo e Seus Municípios”, Capri dedica 22 páginas à antiga urbe, que então abrangia toda a atual região do Grande ABC, com seções que tratam especificamente de São Caetano, Santo André e da Vila de S. Bernardo, sede da edilidade.  A maior parte do conteúdo versa sobre  o comércio e a indústria local, mas há espaço também  para a geografia, os serviços urbanos, o lazer e outras instituições.  Ainda que muito incompleta – e às vezes errônea -,  a síntese apresentada por Roberto Capri é hoje um importante documento histórico sobre o momento  vivido pela região. O livro traz, por exemplo,   um dos poucos registros existentes da presença de recém-instaladas redes de água, esgoto e energia elétrica no município,  restritas ainda à apenas algumas áreas (1). 
 
Em relação às indústrias da Vila, ganham destaque : a pioneira da fabricação de móveis , João Basso & Cia , que, segundo a  descrição de Capri, possuía “filial em Capivary e Depósito em S. Paulo”  e,  além de  móveis,  fornecia “madeiras,  para construções,  e caixas vazias, para macarrão  e sabão” ;  a fábrica de cerveja e de licores de Gustavo Rathsam, cuja cerveja “ recomenda-se pela qualidade, como testemunha o  extraordinário numero de garrafas que tem vendido diariamente no município”, e  da serraria à vapor  também pertencente a ele ,  que fazia uso exclusivo de “madeiras tiradas de sua propriedade, com 80 alqueires de mata, na Linha  Capivary”;  a Tecelagem de Seda Vila de S. Bernardo, que produzia “ tecidos de seda para (...) alfaiates, modas, confecções, setins, messaline (...). Especialidades em fitas para chapéus, liberty e tafetás” ; a fábrica de charutos “A Delícia”,  “fundada a 23 de  Abril do ano de 1900 pelo seu atual proprietário, reconhecida pela firma  "Ítalo Setti e Filho",  na qual  “manipulam-se (...) charutos de  diversas qualidades em caixas de 100, 50 e 25, cigarrinhos em carteiras, em  maços, em caixinhas que tem tido a melhor aceitação e são conhecidas em  todo o Estado de S. Paulo, Minas, Goiás, etc (...)  e só empregam-se fumos especiais, quais da Bahia, Sumatra, e outras qualidades finas (...) sem que a fábrica, instalada em vastos lugares, ocupa entre crianças, moços e moças, de 90 a 100 operários”.   
 
Em 1922, Capri publicaria uma segunda obra sobre os municípios do Estado de  São Paulo, intitulada “São Paulo - A Capital Artística No Centenário Da Independência”. Neste livro, o autor  dedica cerca de uma página à história da cidade,  possivelmente a primeira até então escrita.  A sucinta descrição cronológica de Roberto Capri tem o mérito de não confundir a efêmera vila quinhentista de Santo André da Borda do Campo com o  município de São Bernardo, erro cometido por relatos históricos posteriores. O texto expõe o desaparecimento e a indeterminação relativa à localização daquela  vila, além de  mencionar o aparecimento posterior da antiga povoação de São Bernardo, “ao norte e à pequena distância da atual sede do município”, isto é, no entorno da Capela de São Bernardo, na confluência das atuais avenidas Kennedy e Vergueiro. Por outro lado,  afirma  erroneamente  que tal povoação teria caído depois “ em progressiva decadência até desaparecer por completo, com a mudança de seus últimos habitantes para o lugar em que está situada a atual Vila de S. Bernardo”.  A  Capela Nossa Senhora da Conceição da Boa Viagem é mencionada como ponto original desta última localidade – correspondente ao centro contemporâneo da cidade – e como via  de passagem de  “tropeiros, que, vindo do interior de S. Paulo, ali faziam pouso nas suas frequentes viagens em demanda do porto de Santos”. Entre muitos dados importantes sobre diversos aspectos da vida municipal e seus estabelecimentos, pode-se destacar um dos raríssimos registros  remanescentes da existência da  “Fiação de Seda Nacional”,  que aqui transcrevemos: “fundada há doze anos (...) importante fábrica (que) tem progredido extraordinariamente até atingir o apogeu do seu  maravilhoso florescimento, sob a diligente e competente direção da Exma. Sra. D. Terezina Capitanio Fantinati, eficazmente auxiliada por seu marido Sr. Victorio Fantinati (...). É, das  fábricas de seda nacional,  a mais antiga instalada  no Estado de S. Paulo,  cujos produtos, por variedade, qualidade e  perfeição  rivalizam com os congêneres de proveniência estrangeira  e se impõem à geral aceitação. Fia a seda nacional, importando diretamente  da Europa os óvulos do  bicho-da-seda”  (2). Este livro de 1922 traz ainda um dos primeiros conjuntos de fotografias relativas ao município de S. Bernardo, do qual destacamos a imagem que ilustra este texto, que enfoca a antiga Igreja Matriz, na região central.
 
Nascido em 1867,  em  Roccadaspide, na Campânia, Roberto Capri provavelmente migrou para o  Brasil na década de 1900, sendo certo que, em 1908, já vivia com a esposa e as filhas italianas no país (3). Pouco tempo depois, por volta de 1910, já era diretor do jornal “Il Progresso Italo-Brasiliano” (4). Em  1911,  o escritor trabalhava para a revista mensal “O Fazendeiro”,  a qual, certa vez, apresentou à Câmara Municipal de Guaratinguetá, que, na ocasião, “mandou publicar informações e dados estatísticos relativos ao município”(5), episódio este que  constitui um dos  primeiros  registros do envolvimento  de Capri com  a comercialização de  divulgação municipal. 
 
A partir de 1912,  Capri iniciou a publicação, em fascículos, de “O Estado de S. Paulo e Seus Municípios”, tendo procurado vender suas assinaturas em cidades do interior do Estado. Ao longo dos anos seguintes, o autor publicou diversas outras obras sobre municípios paulistas e mineiros (6) (7). Muitas vezes visitou câmaras municipais e outros órgãos públicos em busca de  retorno financeiro para sua produção  - seja através da venda dos livros prontos ou através de financiamentos ( 8 ), eventualmente obtidos com o compromisso da inclusão de determinada localidade em publicação futura, como aconteceu na cidade de  Casa Branca, em março de 1913 (9) .  Após duas décadas de atividades no mercado editorial, Roberto Capri faleceu em São Paulo, em 1933 (10).
 
Longe de serem publicações eruditas ou científicas, os  livros de Roberto Capri representam a fusão, característica da época, entre a  tradição dos almanaques  e  dos álbuns fotográficos,  dedicados a  determinadas localidades, das quais se empenhavam em fazer a publicidade institucional e, cada vez mais a partir da década de 1910, também privada. Décadas  depois de sua produção,  tornaram-se fontes documentais importantes para a memória e a história de muitos municípios brasileiros,  devido à riqueza das informações escritas e visuais que oferecem,  que são ,muitas vezes,  os únicos registros remanescentes de certos elementos do passado desses lugares. 
 
 
 
 
 
 
Notas:
(1) - Cf. Capri, Roberto. “O Estado de São Paulo e seus Municípios”. São Paulo: Pocal & Weiss, 1913. ps. 241 -262.  
(2) - Cf. Capri, Roberto. “São Paulo - A Capital Artística No Centenário Da Independência”. São Paulo , 1922. ps. 211 -242.  
(3) - Cf. Site de genealogia My Heritage (https://www.myheritage.com.br)
(4) - Cf. Jornal Correio Paulistano, 1/7/1910, p.10
(5) - Cf. Jornal Correio Paulistano, 14/9/1911, p.2. A matéria informa que a revista teria sido divulgada também no exterior, e que, tendo em vista esta publicidade, a prefeitura cogitava melhor custear seu serviço de propaganda.
(6) - Cf. Jornal Correio Paulistano,  16/6/1914 p.2. e 10/1/1916 p.2; Jornal “O Estado de São Paulo”, 1/2/1914, p. 14. 
(7) - Segundo o sociólogo José de Souza Martins, o Álbum de S. Caetano, de Roberto Capri, fez  extenso uso das informações presentes em um  livro escrito por Renato Belluci (Pagine di verita e di vita – cinquanta anni di storia della popolazioni dei São Caetano), e, de maneira antiética,  não o citou em nenhum ponto do livro. Cf.  Anais do II Congresso de História da Região do Grande ABC  - 1992. São Bernardo do Campo: PMSBC, 2000.  p.52
(8) - Cf. Jornal Correio Paulistano:  16/5/1912, p.2. ;12/9/1912, p.8.;   24/10/1912, p.6.; 24/6/13, p. 3;  Jornal “O Estado de São Paulo”, 18/06/1913, p. 15; Diário Oficial do Estado de S. Paulo,  15/05/1913 p. 2121; Jornal do Comércio  14/2/1914. p.2.
(9) - Cf. Jornal Correio Paulistano,  19/3/1913 p.3 
(10) - Cf.  Jornal “O Estado de São Paulo”, 29/01/1933, p. 14. 
   
 

 

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