A chegada de cerca de 400 imigrantes vênetos e trentinos ao Espírito Santo, a bordo do navio “La Sofia”, em 24 de fevereiro de 1874, é considerada o marco  inicial da imigração italiana em massa para o Brasil (1). Naquele momento, o estado italiano unificado contava com apenas 12 anos. A península itálica se encontrava dividida em pequenos estados desde a Invasão Lombarda, no final do século VI,  nos princípios da Idade Média.  Mais de mil e duzentos anos depois, às vésperas da Revolução Francesa, a região contava com mais de dez estados politicamente distintos (2), os quais apresentavam peculiaridades econômicas, étnicas e lingüísticas. As guerras napoleônicas e as revoluções liberais do século XIX, convulsionaram profundamente a península (3), abrindo caminho para o processo de  unificação do país, o qual se iniciou em 1861, com a fundação do Estado Italiano – já abrangendo a maior parte do território atual - e se completou pelas décadas seguintes com a anexação do Vêneto (1866), de Roma (1870) e do Trentino-Alto Ádige (1919). 
 
Durante o século XIX, além de politicamente conturbada, a península foi pobre e pouco desenvolvida  em relação aos principais estados europeus. Um dos  indícios da pobreza italiana na época era a forte incidência da pelagra nas regiões do norte. Estava associada à desnutrição causada pelo consumo quase que exclusivo de derivados de milho, como a  polenta, principal item da dieta dos camponeses na Lombardia e no Vêneto.  A expectativa de vida média nos subúrbios de Nápoles em meados da década de 1830 era de pouco mais de 20 anos (4). Cerca de 75% da população era analfabeta no momento da unificação, sendo que as taxas de iletrados eram menores no norte e maiores no sul do país. Todas as regiões ainda possuíam economias majoritariamente dependentes da agricultura (5), mas o mundo rural italiano passou por grandes transformações no período, com a abolição de direitos tradicionais , sobretudo em relação ao uso  das terras comunais, trazendo grandes dificuldades para camponeses em diversas áreas (6). Por outro lado,  o contingente populacional crescia rapidamente, saltando de 18 milhões de habitantes em 1800, para 22 milhões em 1840, e quase 30 milhões em 1881, ano em que a população do Brasil, país com uma área 28 vezes maior que a Itália , não chegava a 13 milhões. Neste contexto, mesmo antes da unificação e do processo migratório massivo, imigração sazonal  para outros  países da Europa  já era tradicional em algumas províncias do norte, como  Belluno, Bérgamo  e Udine (7).
 
Com o tempo, a unificação e o progresso da industrialização do país iriam melhorar muito os indicadores sociais italianos, mas, nas décadas imediatamente seguintes ao surgimento no novo estado, os problemas se agravaram em muitas regiões. Ainda havia instabilidade política e conflitos armados, como os relacionados à anexação de Roma e do Vêneto – neste caso, a guerra contra a Áustria - e a  grande revolta  popular na Sicília, em 1866.  Em 1868, sofrendo  grandes dificuldades financeiras, o governo criou o  imposto sobre a moagem de grãos, que provocou revoltas camponesas em várias localidades (8). A unificação dos mercados regionais, juntamente com a exposição do novo mercado nacional à uma dura concorrência internacional, agravou a condição econômica dos agricultores, especialmente dos pequenos produtores - arrendatários ou proprietários (9).
 
Foi neste contexto que o  processo de migração transoceânica em massa surgiu  e se intensificou na Itália.  Em 1877,  cerca de 21 mil  imigrantes permanentes deixaram o país (10). Entre estes estava a primeira leva de  italianos  que iria se estabelecer no Núcleo Colonial São Bernardo. O Estado de São Paulo vivia então a expansão da economia cafeeira e, conseqüentemente, da necessidade de mão de obra para seu funcionamento. A escravidão estava com os dias contados no Brasil a partir do fim do tráfico internacional (1850)  e assinatura da lei do ventre livre (1871). O recurso à imigração estrangeira, que já vinha acontecendo há décadas, sobretudo com colônias de agricultores de outras nacionalidades, aumentou a partir de então (11), incluindo uma forte presença do elemento italiano. Em 1874, o governo imperial contratou com o empresário  Joaquim Caetano Pinto Junior a introdução de 100 mil imigrantes no país  em um prazo de 10 anos. Segundo a lei que autorizava esta contratação, estes imigrantes deveriam ser “ alemães, austríacos, suíços, italianos do norte, bascos, belgas, suecos, dinamarqueses e franceses, agricultores, sadios, laboriosos e moralizados, nunca menores de dois anos, nem maiores de 45, salvo se forem chefes de família. Desses imigrantes, 20 por cento poderão pertencer a outras profissões”(12). Neste ano, ainda havia  apenas  17 mil estrangeiros no estado, dos quais apenas 7 %  eram italianos. Em 1886, o percentual de italianos  entre os estrangeiros no estado já havia subido para 36% (13).
 
Em São Paulo, a maior parte dos imigrantes italianos se dirigiu inicialmente ao interior do estado para trabalhar nas fazendas de café. No entanto, o  Núcleo Colonial São Bernardo, assim como  outros empreendimentos relativamente próximos,  foi projetado para  a agricultura de subsistência e para incrementar o abastecimento  de gêneros alimentícios e outros produtos  na capital paulista.  Recebeu seus primeiros moradores em  3 de  setembro  de 1877 (14).  A maioria dos  imigrantes estabelecidos  nos primeiros dois anos  de existência da colônia eram do norte da Itália, embora outras nacionalidades também estivessem presentes. Entre eles estavam membros das famílias Stefanini, Dal Zotto, Bassoli, Delegá, Pinotti, Bocalleti, Tironi, Margonari, Medici, Boralli, Rusi, Rainieri, Gerbeli, Roqueti, Montagna, Corradi, Dusi, D’alessio,  Bof, Dal Molin, Rech, Negri,  Cerchiari, Setti, Scopel, Zaia, Oneda, Odorizzi, Vertamatti, Paggi, Pedó, Cestari, Stangolini,  Storti, Locatelli, Pessoti, Arsuffi. Gambiraggio, Tozzi, Zambaldi, Casa , Genari, Angioletti, Bianchini, Girardello, Grotti,  estabelecidos em 1877;   Ferrari,   Bassani,  Bonísio e  Rituchi,  que chegaram em 1878; e  Costa e Guardezani, vindos em 1879  (15)
 
A instalação e os primeiros meses de permanência de muitos grupos de imigrantes  no Brasil foram problemáticos. Enquanto não tinham condições de produzir e obter renda, freqüentemente dependiam de empréstimos ou subsídios governamentais para suas necessidades básicas, os quais nem sempre eram fornecidos a contento, como a imprensa da época registrou em diversos momentos. Em abril de 1875, por exemplo, o jornal Correio Paulistano registrou que   500  italianos recém chegados  passaram fome – a ponto de algumas pessoas desmaiarem –  em um hotel enquanto aguardavam uma destinação (16). No caso do Núcleo Colonial S. Bernardo, o governo pagava aos colonos  o fornecimento de víveres básicos, cujo valor entrava – assim como acontecia com a importância relativa aos  lotes de terras – em uma conta que cada colono deveria saldar  antes de obter seu título de propriedade definitivo (17). Mas também neste núcleo existiram grandes dificuldades nos primeiros meses, de modo que, em janeiro de 1878, segundo o jornal Correio Paulistano, “ muitos dos colonos de S. Bernardo, cansados de esperar (o dinheiro necessário para compra de mantimentos), revoltaram-se, sendo necessária a intervenção do chefe de polícia. O mesmo fato se repetiu no mês seguinte, com a circunstância agravante de terem impedido a retirada do diretor das colônias, que para ali fora a serviço. O diretor foi libertado da crítica situação pelo chefe de polícia” (18). 
 
A realização de trabalho assalariado para a administração do Núcleo Colonial  - que poderia incluir, por exemplo, a  limpeza  de estradas  - foi um expediente usado por vários colonos para obter renda nestes primeiros meses. Foi o caso de Anunzzio Tironi, do  futuro Intendente Municipal  Giuseppe Dal Zotto (19), e também da família Setti, cujos filhos menores de idade  foram empregados no serviço, pelo qual seu pai recebia o devido salário.  Entre eles estava  Italo Setti, de 10 anos,  que no futuro seria um dos  industriais mais prósperos da localidade (20).     
Entre a segunda metade da década de 1880 e o  início do século XX,  os números da imigração italiana em geral, e também para o Brasil, iriam se multiplicar rapidamente.  Outras crises econômicas e políticas na Itália e o fim definitivo da escravidão no Brasil estão entre os principais motivos. Em São Bernardo novas levas de italianos chegariam neste período, ocupando  áreas recém abertas para colonização, sobretudo nas regiões dos atuais bairros do  Rio Grande, do Rudge Ramos e do Batistini. 
 
   
 
Antônio Dusi. 1915.   Nascido na cidade de  Verona, em 1848, época em que o local fazia parte do Reino Vêneto-Lombardo, então sob possessão austríaca, Antônio foi um dos primeiros italianos a se estabelecer no Núcleo Colonial S. Bernardo, ainda em 1877. A fotografia foi publicada, em 2002,   no livro “Origem das Famílias de S. Bernardo do Campo”, de Fábio S.  Gomes. A atual Vila Dusi, no Centro de S.B.C, foi construída  nas terras em que sua família se instalou desde o momento da chegada a S. Bernardo. 
 
 
 
 
Notas:
 
(1) - Basile, Rodrigo, Imprensa Italiana no Brasil nos 150 anos da Imigração. Publicado em 28/06/2024. Site da Fundação Biblioteca Nacional. 
(2) - Os dez principais estados italianos em 1789 eram os seguintes: Reino do Piemonte-Sardenha,  Estados Papais, Ducado de Milão, Reino de  Nápoles, República de Gênova, República de Luca, Ducado de Parma, Ducado de Modena, República de Veneza, Ducado da Toscana. 
(3) - Revoltas liberais,   como as de 1820, 1821, 1831 e 1834, levaram dezenas de militantes ao exílio. Alguns deles,  como o célebre  Giuseppe Garibaldi, viveram no Brasil.   
(4) - Duggan, Christopher. A Concise History of Italy. Cambridge University Press, 2013.  p.102. 
(5) - Davis, John A. Italy in the Nineteenth Century 1796-1900 (Short Oxford History of Italy). Oxford University Press,  2000 p.235. 
(6) - Italy. History. Encyclopedia Britannica on line. 
(7) - Villa, Deliso. História Esquecida. São Caetano do Sul, Fundação Pró-Memória,2000. p. 53. 
(8) - Italy. History. Encyclopedia Britannica on line.
(9) - Cf. Franzina, Emílio. A grande Emigração. Campinas, Unicamp, 2006. p. 37 e 39
(10) - Villa, Deliso.Idem. p.74. 
(11) - Bassanezi, Maria S. C. Beozzo ... [et alt.]. Atlas da Imigração Internacional em São Paulo. (1850-1950). São Paulo, Unesp, 2008.  p.12. 
(12) - Império do Brasil. Decreto, Nº 5.663, de 17 de junho  de 1874
(13) - Bassanezi, Maria S. C. Beozzo ... [et alt.].Idem. ps.31,34 e 37. 
(14) - Cf. Santos,  Wanderley dos.Antecedentes Históricos do ABC Paulista (1550-1892). São Bernardo do Campo, Prefeitura Municipal de S.B.C, 1992.   p.252.
(15) - Cf. Estado de São Paulo. Inspetoria de Terras, Colonização e  Imigração. Livro de Matrícula dos Colonos do Núcleo Colonial de São Bernardo. (1877/1892). Acervo: Arquivo do Estado de São Paulo
(16) - Cf. Jornal Correio Paulistano. 23/4/1875.  p.1
(17) - Construir casa e produzir roças em um prazo máximo de seis meses era outra obrigação dos colonos
(18) - Jornal “A Província de São Paulo”, 5 de abril de 1878.
(19) - Cf. Núcleo Colonial São Bernardo. Livro de Contas dos colonos. p.82 . Acervo: Arquivo do Estado de São Paulo.
(20) - Jacobine, Jorge Henrique Scopel. Os primórdios da família Setti em São Bernardo. Acessível no Portal da Secretaria de Cultura de São Bernardo do Campo. 
 
 

 

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