Na época em que a migração coletiva dos italianos para o Brasil se iniciou, seu estado nacional unificado era uma realidade recente, que unia populações que existiram por séculos em situações políticas e econômicas distintas. O núcleo colonial São Bernardo recebeu famílias migrantes das regiões de Nápoles, do Friul, de Trento, da Emília Romagna, da Toscana e, em grande quantidade, do Vêneto – os mais comuns no conjunto do município - e da Lombardia - que foram os mais freqüentes na sede do núcleo e nas linhas coloniais Jurubatuba e São Bernardo Novo. Em 1897, segundo um recenseamento governamental, havia um total de 68 famílias provenientes da Lombardia na colônia de São Bernardo (1).

A região da Lombardia deve seu nome à invasão e ao domínio do povo germânico denominado “Lombardo” no norte da Itália, entre os anos de 568 e 774. Antes disso foi habitada por populações celtas e transformada em província romana – a Gália Cisalpina- no século II a.c. Após a queda do império Romano do Ocidente, em 476, esteve sob o domínio de outros povos bárbaros e do Império Bizantino. No ano de 774, os lombardos foram derrotados pelos francos, liderados por Carlos Magno, encerrando seu domínio no norte italiano. A Lombardia se tornou então parte do Impérios Carolíngio e, depois, de seu sucessor, o Sacro-Império Romano Germânico. No século XII, várias prósperas cidades da região - Milão, Cremona, Brescia, Bérgamo- formaram a célebre Liga Lombarda e gozaram de um auto grau de força e autonomia política, chegando à desafiar e vencer o exército imperial germânico em 1176. A região tornou-se a parte central do Ducado de Milão entre 1395 e 1796, estando sucessivamente ligada, durante este período, à diversas forças políticas, incluindo nações estrangeiras, como a França, a Espanha e a Áustria. Em 1796, o ducado, muitas vezes denominado simplesmente “Milanês”, deixou de existir, tendo sido invadido pelo exército de Napoleão Bonaparte, que ocupou a área até 1814, momento em que a Lombardia voltou ao domínio austríaco, como parte de um estado denominado Reino Lombardo-Vêneto. Em 1861, durante o processo de unificação italiano, foi anexada ao recém surgido Reino da Itália (2).

No século XIX, durante o domínio austríaco, a Lombardia era a região mais desenvolvida da Itália, tanto do ponto de vista econômico (3) – através de sua agricultura e sua indústria - como também, no âmbito cultural, onde detinha os melhores índices de alfabetização da península. Ainda assim, em comparação com as áreas mais prósperos da Europa, era pobre e muito dependente de sua produção agrícola, tendo a fiação de seda como único ramo industrial importante. A unificação do país , em suas primeiras décadas, trouxe grandes dificuldades econômicas para a população mais pobre de toda a Itália, em especial os camponeses, que passaram a sofrer a concorrência de produtos estrangeiros - devido à diminuição e à padronização de taxas alfandegárias, além de receberem o impacto dos significativos aumentos de impostos determinados pelo governo (4). É neste contexto que se insere o forte movimento emigratório que apareceu na maior parte da Itália e, ainda que em menor grau, também na Lombardia (5). O Brasil e, em especial, o Estado de São Paulo, foram um dos principais focos de recepção da emigração italiana.

Criado pelo governo imperial em 1877, para receber imigrantes europeus e promover a agricultura de subsistência e a comercialização local de alguns produtos, o Núcleo Colonial São Bernardo estava dividido entre uma sede urbana – com pequenos lotes destinados prioritariamente a comerciantes e artesãos – e diversas linhas coloniais rurais – destinadas a agricultores. Na sede – que correspondia à uma parte da região da Rua Marechal Deodoro e seu entorno - onde pefaziam 48% número total de famílias instaladas, os lombardos foram pedreiros (ex: Coppini), negociantes (ex: Bocalletti, Setti), sapateiros (ex: Pasin, Genari), Carpinteiros (ex: Cerchiari), charuteiros( Rusi), e agricultores ( ex: Zapparolli, Matavelli). Muitos exerciam várias atividades distintas, mantendo comércio na região central e estabelecimentos agrícolas nas áreas rurais (ex: Tironi). Na linha Jurubatuba, cujo território abrangia a totalidade dos atuais bairros Assunção e Planalto, além de partes do Centro, do Demarchi e do Jordanópolis, existiam 25 família lombardas - 41 % do total. Na linha São Bernardo Novo, que abrigava parte dos bairros Santa Terezinha, Montanhão e Ferrazópolis, os números dos lombardos eram de 16 famílias em total de 26 (59%) (6 ) .

A grande maioria dos lombardos de São Bernando vieram das províncias de Mântova (Setti, Grotti, Coppini, Genari, Gerbeli, Pasin, Danadai, Gavazani, Medice, Delegá, Cerchiari, Rainieri, Zapparolli, Guardezani,Rusi, Balista, Ritucci, Margonari, Bassoli, Lui, Bonini, Ogliari, Borali, Pinotti) e Bérgamo (Bocaletti, Gambiragio, Locatelli, Vertamatti, Périgo, Matavelli, Saia, Arsuffi, Paggi, Tosi, Mazolini, Casa, Angioletti, Genari (II), Caio, Panieri, Bacci, Volpi, Pessoni, Decco, Baraldi, Savordeli), embora tenham existido também algumas originárias de Cremona (Bonício, Bono e Tironi), Piacenza (Magnani) e Brescia (Rechi). Em alguns casos, é possível saber até mesmo a comuna – circunscrição administrativa italiana equivalente ao município brasileiro – de origem dos migrantes: De Poggio Rusco emigraram as famílias Setti e Grotti; os Coppini vieram de Schivenoglia; os Pinotti da comuna de Magnacavallo; um dos ramos da família Vertamatti veio de Canonica d'Adda; Da comuna de Bagnática são os Paggi; a família Casa veio de Palazzago; os Savordeli, de Azzana (7) ( 8 ).
Fugindo da crise econômica na Itália e buscando melhores condições de vida no Brasil, a maioria dos lombardos - e dos italianos em geral – ainda permaneceram na pobreza por muitas décadas, tendo melhorado sua situação econômica aproximadamente no mesmo período em que o progresso industrial e comercial da região sudeste do país acelerou, entre as décadas de 1950 e 1970. Em São Bernardo, muitas famílias ficaram por poucos anos – Guardezani, Zapparoli, Rusi, Tironi, Matavelli, Genari, Lui, por exemplo - enquanto algumas permaneceram, tornando-se numerosas nos dias de hoje, como os Arsuffi, os Gerbeli, os Medici e os Coppini.

 

Família Cerchiari, de origem lombarda. 1910. Publicada no livro “Famílias Ilustres e Tradicionais – São Bernardo do Campo”,

organizado por Itamir Orsi.

 

 

Notas:

(1) - Estes números se referem à quantidade de núcleos familiares residenciais recenseados na colônia de São Bernardo em 1897, e não à quantidade de sobrenomes distintos de cada região. Dessa forma, por exemplo, existem três núcleos com o mesmo sobrenome Setti, os quais contam como três núcleos familiares distintos, apesar dos três chefes destas famílias serem irmãos. Cf. Livro de Matrícula dos Colonos – Núcleo Colonial de São Bernardo/Sede. Inspetoria Geral de Terras, Colonização, Imigração do Estado de São Paulo. (1877/1892). Acervo: Arquivo do Estado de São Paulo

(2) - Cf. Lombady. Encyclopaedia Britannica online. Acessado em 28/2/2024.

(3) - Cf. Gilmour , David. The Pursuit of Italy_ A History of a Land, Its Regions, and Their Peoples. London: Penguin Books, 2011.p. 182.

(4) - Cf. Beales, Derek & Biagini , Eugenio F. The Risorgimento and the Unification of Italy . New York: Routledge,2013. P. 166, 167,168,171

(5) - Cf. Davis, John A. (E). The Short Oxford History of Italy. The Nineteenth Century. p. 235 -239.

(6) - Cf. Cf. Livro de Matrícula dos Colonos – Núcleo Colonial de São Bernardo/Sede. Inspetoria Geral de Terras, Colonização, Imigração do Estado de São Paulo. (1877/1892). Acervo: Arquivo do Estado de São Paulo.

(7) - Para determinação do local de origem das famílias foram pesquisadas, além do já citado Livro de Matrícula dos Colonos, as seguintes obras:

- FamilySearch. Portal eletrônico de pesquisa genealógica, mantido pela Igreja de Jesus Cristo dos Últimos Dias. (https://www.familysearch.org/pt)

- Gomes, Fábio. Origem das Famílias de São Bernardo do Campo – Famílias Tradicionais e Ilustres. São Paulo, EDICON, 2005. 3 v.

- Orsi, Itamir e PAIVA, Eddy C. Famílias Ilustres e Tradicionais de São Bernardo do Campo. São Bernardo do Campo, Edições Memória Nacional, 1994. v. 2.

- Orsi, Itamir. Famílias Ilustres e Tradicionais – São Bernardo do Campo. São Bernardo do Campo, Edições Preservação da Memória Nacional, 1990. v. 1.

- Rodrigues, Artur. Sem título. Estudos genealógicos não publicados. O Sr. Artur Rodrigues é genealogista e colaborador do Centro de Memória de S.B.C.

(8) - Os sobrenomes citados neste texto dizem respeito apenas aos imigrantes italianos lombardos estabelecidos no Núcleo Colonial S.B. em 1897, sendo possível a chegada de outros em momentos posteriores.

 

 

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